terça-feira, 15 de abril de 2008

Tempo e Espaço entre Pescadores da Praia da Concha, Vila Velha-ES


Tempo e Espaço entre Pescadores da Praia da Concha, Vila Velha-ES
Márcio De Paula Filgueiras e-mail: mpfilgueiras@gmail.com; mpfilgueiras@yahoo.com.br
Universidade Federal do Espírito Santo
Ano de conclusão do curso de bacharelado e licenciatura em Ciências Sociais: 2005.
Tempo e Espaço entre Pescadores da Praia da Concha, Vila Velha-ES
Márcio De Paula Filgueiras1
RESUMO: O presente texto aborda alguns aspectos relacionados às noções de tempo e espaço entre pescadores artesanais da Praia da Concha, no bairro de Barra do Jucu, em Vila Velha-ES. Pescando com tecnologia simples, estes pescadores possuem uma rica bagagem de conhecimentos sobre as sazonalidades locais, que lhes permite pescar com segurança e eficácia, no contexto produtivo instável que é o mar. Pretendemos mostrar também como algumas modificações nos espaços tradicionais destes pescadores, operadas por dinâmicas externas às suas práticas, transformam a territorialidade local e impõem novos ritmos e atitudes a estes trabalhadores do mar.
Unitermos: Tempo-Espaço-Pescadores-Mudanças
ABSTRACT: This text approaches some aspects related to the notions of time and space among artisanal fishers of Praia da Concha, in the neighborhood of Barra do Jucu, Vila Velha-ES. Fishing with simple techniques, these fishers have a rich knowledge of local seasonality that allow them to fish with safety and efficiency, in the context of the sea as a instable productive enviromental. We also intend to show how some changes in the fisher’s tradicional espaces, operated by dynamics external to their practices, transform the local spaciality and impose new rhythms and new attitudes on the fishers.
Key Words: Time-Space-Fishers-Changes
Introdução
Neste artigo pretendo compartilhar alguns resultados da pesquisa que realizai entre outubro/2003 e abril/2004, como um dos requisitos para obtenção do título de bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo e que deu origem à monografia intitulada “Pescadores da Praia da Concha: saberes, práticas e ritmos locais”.
Os interlocutores desta pesquisa foram pescadores cujas pescarias partem da Praia da Concha, localizada no bairro de Barra do Jucu, em Vila Velha, Espírito Santo. Apesar de não ter tido contato com registros oficiais, conversas com pescadores antigos, como Seu Írio de 92 anos, sugerem que a pesca é realizada no local há pelo menos 100 anos.
Como pude observar, os pescadores da Praia da Concha pescam com tecnologia relativamente simples, com embarcações denominadas localmente baiteiras, geralmente tracionadas a remo ou motor, com tripulações de dois pescadores, que utilizam como aparelhos de captura redes de espera ou linha e anzol. Não há nenhuma organização local formal que reúna estes pescadores e a grande maioria deles não está vinculada à Colônia Z-2, localizada no centro da cidade de Vila Velha ou à SEAP2.
Este estudo inicial vem se somar às pesquisas que, desde o início do século XX, com os Argonautas do Pacífico Ocidental de Malinowski (1984) e a Expedição Cambridge ao Estreito de Torres (NIETSCHMANN, 1989, APUD MALDONADO, 1993), têm abordado as complexas formas de relacionamento entre povos pescadores e o meio marítimo.
A estas pesquisas se seguiram diversas outras, como a de Raymond Firth (1975) na Malásia, a de Fredrik Barth (1966) na Escandinávia, as de Forman (1970), e Kottak (1983) na Bahia, a de Peirano (1975) no Ceará, a de Maldonado (1993) na Paraíba, a de Woortman no Rio Grande do Norte (1992) e as de Kant de Lima & Pereira (1997) em Niterói-RJ, para citar algumas.
A diversidade e qualidade destes estudos permitiram a consolidação das pesquisas entre grupos pesqueiros como um campo bastante fértil para a reflexão antropológica. Segundo Simone Maldonado (1993), o mar enquanto meio indiviso e instável, tanto do ponto de vista do perigo quanto da produção, produz um contexto produtivo que vai desencadear diferentes formas de cognição e sociabilidade que, a despeito das especificidades locais, compõem o que a autora chamou de maritimidade, ou seja, o conjunto de práticas e conhecimentos do meio natural, das sazonalidades, dos cardumes, dos locais adequados para pesca, das formas de organização da produção, que se colocam como imprescindíveis para a realização da atividade pesqueira seja qual for a escala de produção, artesanal ou industrial.
Como constituintes universais desta maritimidade aparecem as noções de tempo e de espaço (FARIS, 1972; SMITH, 1977; MOLLAT, 1979; DIEGUES, 1983; MALDONADO, 1986 apud MALDONADO, 1993). Enquanto trabalhadores do mar, os pescadores têm o ritmo de suas atividades condicionado em grande medida pelo movimento dos cardumes, pelas condições do mar, ou pelas variações da Lua. Estes ritmos, por sua vez, estão relacionados a espaços específicos, onde se produz, onde se espera a hora de voltar ao mar ou se compartilha com descontração os eventos cotidianos socialmente significativos.
A seguir apresento algumas das formas que esta relação entre tempo e espaço assume entre pescadores da Praia da Concha. Para orientar a análise dos dados me vali da perspectiva conceitual de Evans-Pritchard (1978) que trabalha com a distinção entre o tempo ecológico, cíclico, reflexo das relações da sociedade com a natureza, e o tempo estrutural, linear, reflexo das relações dentro da estrutura social.
Em seu estudo sobre os Nuer, povo habitante do que hoje é o Sudão, Evans- Pritchard pôde perceber um calendário polarizado entre o tempo das chuvas e o tempo da seca, aos quais correspondiam ritmos diferenciados de vida nas aldeias e nos acampamentos.
Entre os pescadores da Praia da Concha pude identificar também períodos diferenciados do ano em que as condições ecológicas se alteram e alteram-se igualmente os ritmos e atividades dos pescadores. Além ainda destas sazonalidades naturais, certas modificações nos espaços costumeiros dos pescadores, operadas por dinâmicas externas às práticas locais, também afetaram os ritmos sociais dos interlocutores da pesquisa, como espero esclarecer a seguir.
Tempo ecológico
No que se refere ao tempo ecológico, os principais eventos naturais cíclicos que aparecem de forma relevante no discurso dos pescadores são as variações sazonais referentes ao tempo quente e ao tempo frio e às fases da Lua. Todavia, há outros eventos naturais bastante significativos para a compreensão dos ritmos sociais dos pescadores como o vento e a direção para qual corre a água, os quais também descrevo a seguir.
Os pescadores da Praia da Concha pescam todos os dias do ano, salvo quando o mar está grosso (agitado), o que, segundo eles, dificulta a navegação e não permite que os peixes encostem, ou seja, aproximem-se da costa.
Segundo Paulo Lira (66 anos), pescador local, no chamado tempo frio, que vai de abril a outubro, o mar costuma ficar grosso, ou seja, agitado, com poucos dias apropriados à pesca, em contraposição ao chamado tempo quente, que vai de novembro a março, quando o mar costuma ficar em melhores condições para a pescaria. Neste período, além do mar ficar mais constantemente manso, ou seja, mais tranqüilo, os cardumes de comidinha (peixes pequenos, em geral filhotes de manjuba) encostam, atraindo cardumes de peixes maiores.
O tempo quente é, portanto, a época à qual os pescadores se referem como a mais apropriada para a pescaria de mar na Praia da Concha apesar de, durante o tempo frio, também ocorrerem muitos dias propícios à pesca, o que reafirma a importância do fator imprevisibilidade sobre os ritmos regulares da sua compreensão da sazonalidade da pesca e da presença de cardumes no contexto de suas atividades.
Segundo Paulo Lira, a Lua também exerce significativa influência nos ritmos dos pescadores. Segundo ele, quanto mais clara a Lua pior para os peixes encostarem porque a Lua clara costuma tornar o mar mais agitado.
Ainda segundo Paulo Lira, o advento da iluminação da Praia do Peitoril, principal praia da Barra do Jucu do ponto de vista turístico e via de acesso para a Praia da Concha, está relacionado à menor ocorrência de peixes pois, segundo ele, a luz intensa impede que os peixes encostem. Outros pescadores, como Marcelo (37 anos), já acham, por outro lado, que a luz artificial não interfere muito.
Em relação aos ventos, Paulo Lira disse ainda que estes costumam soprar mais freqüentemente vindo do norte/nordeste e, com um pouco menos de freqüência, vindo do sul. Ocorrem outros ventos, mas estes são os principais. Nas duas condições ocorrem peixes, o mais importante, porém, é que o vento não esteja forte demais, porque dificulta a navegação
A experiência de surfar já tinha me colocado em contato com alguns saberes tradicionais sobre as expectativas a respeito do tempo, como a mudança da direção do vento ou a chegada de uma frente fria. Os outros surfistas diziam que os pescadores, referidos às vezes como os “antigos” costumam prever a chegada do vento sul pela formação das nuvens (cirrus, na linguagem científica, ou rabo de galo3) ou pelo aparecimento de aves chamadas tesouras (Fregata magnificens), de maneira que, o número de espécimes que aparecem corresponde à quantidade de dias em que vai soprar o vento sul.
Isso fazia parte das informações prévias que eu possuía sobre os conhecimentos tradicionais dos pescadores. Com a pesquisa pude perceber que, hoje em dia ,os pescadores já utilizam bastante as previsões do tempo da televisão. Alguns, como Marcelo, no entanto, confirmaram a eficiência prática destes saberes tradicionais.
Em relação à direção do curso da água, fui informado de que a água pode correr tanto do sul para o norte quanto do norte para o sul e isso independe da direção do vento. Os pescadores destacam também que é importante que a água esteja correndo, não esteja parada, porque é melhor para matar os peixes.
Os pescadores também dão atenção ao aspecto da água de maneira que, segundo eles, a água boa para matar robalo, por exemplo, é a água amarelada ou suja. Algumas questões como a cor da água ou a direção da corrente são difíceis de serem previstas, pois ocorrem dentro de uma sazonalidade que não se repete de maneira regular, todavia, são condições que se impõem e que determinam, em grande medida, os comportamentos e as expectativas dos pescadores em relação aos peixes.
Narrativa de uma da idas à Praia da Concha, “recheada” de dados das várias outras idas:
No dia oito de outubro de dois mil e três cheguei à Praia do Peitoril às 4:45 hs. Ainda estava escuro, e já haviam sete pescadores na calçada, esperando suas parcerias para irem pescar. Como pude observar, os pescadores costumam pescar em duplas. A formação destas duplas não obedece à nenhuma regra formalizada ou pré- estabelecida, mas acontece, antes, por afinidade, como me disse Marcelo: “por exemplo, to pescando com Franchino, mas se eu me cansar dele ou ele de mim agente já não pesca junto, melhor que brigar’’.
Ao chegar à Praia da Concha, observei que, ao contrário do que eu imaginava, aqueles sete pescadores esperando suas parcerias não eram os primeiros à chegarem à praia, uma vez que já haviam três embarcações na água. Dentre as duplas que observei irem ao mar, pude reconhecer Paulo Lira formando parceria com Brandinho, Tião Vergalhão com seu irmão Jorge Magaiver, Marcílio com Joãozinho e Marcelo com seu irmão Leléu.
As duplas Joãozinho e Marcílio assim como Brandinho e Paulo Lira e Tião e Jorge, armam suas redes de espera na Praia da Concha e foram mirá-las, ou seja, verificar se haviam capturado algum pescado. Já Marcelo e Leléu , como não possuem rede na Praia da Concha, foram pescar de linha em alguma baixa (ponto pesqueiro).
Os pescadores que foram mirar suas redes voltaram para a praia, guardaram as poucas (5 ou seis) guaibiras que capturaram e voltaram para o mar para pescar de linha. Por volta das 8:45hs a maioria dos pescadores já havia voltado do mar, guardado seus materiais de pesca nos barracões e seguido para casa.
Voltei à Praia da Concha às 14:30 e encontrei novamente Paulo Lira, dessa vez remendando uma rede de espera boeira4 que, segundo ele, havia rasgado na Ilha “quando o mar engrossou”. Um pouco mais tarde chegaram Brandinho, Joãozinho, Marcílio, Muriçoca, Marcelo, Fábio, Aílton que ficaram de baixo das castanheiras, conversando sobre a pescaria e alguns episódios de suas vidas. Paulo Lira e Brandinho miraram mais uma vez seus trasmalhos e aproveitaram para mirar os de Marcílio e Joãozinho. Depois disso, por volta das 17:00hs, os pescadores deixaram a Praia da Concha, percorrendo a escadaria que leva de volta à praia do Peitoril.
Ocorre que, na atualidade, dos cerca de 40 pescadores da Praia da Concha, poucos são os que se dedicam em tempo integral à pesca, de forma que a grande maioria mantém outro emprego e não pode estar presente na praia em todos os referidos momentos. Para citar alguns exemplos: Brandinho é pintor. Tião Vergalhão e Rogério trabalham como pedreiros e Paulo Lira foi funcionário da prefeitura por muitos anos antes de se aposentar
As razões apontadas pelos pescadores para esta necessidade de um outro emprego são, principalmente, a degradação do rio Jucu, a progressiva exploração do litoral pelos chamados barcos de pesca industrial e a conseqüente diminuição da captura na pescaria que não permite mais que uma família se sustente, como se sustentava no passado, só da pesca.
Historicamente, a degradação do rio Jucu pode ser relacionada ao progressivo despejo de esgoto não tratado, ligado principalmente ao aumento populacional ocorrido em toda a Grande Vitória, a partir da segunda metade do século XX, com os grandes projetos industriais (Aracruz Celulose S/A, CST, CVRD). O aumento das áreas de pasto, nos municípios do interior do estado atravessados pelo rio, por sua vez, também contribuiu para a degradação deste, através do assoreamento, que dificulta a navegação mesmo de barcos pequenos.
Já a sobre pesca realizada pelos barcos industriais, que repercute localmente na escassez de pescado, é um fenômeno percebido também em outras partes do mundo, como conseqüência dos métodos de captura utilizados pelos grandes barcos (grandes redes de cerco e de arrasto) e das políticas de exploração dos estoques, centradas nas espécies com maior valor econômico, com freqüentes repercussões negativas sobre as demais espécies, como aponta Diegues (2003).
Ao invés de significar a pouca importância da pesca na vida destes indivíduos, a dedicação em tempo parcial sugere, como eu a interpretei, pelo menos duas coisas:
independente do tempo de dedicação dos indivíduos— exclusiva ou parcial— a articulação entre os pescadores desta praia mantém-se viva e cheia de significados
b) mesmo que encontrem alternativas complementares que tragam alguma solução para suas dificuldades financeiras, já que a pesca não pode ser a fonte exclusiva da subsistência, essas pessoas escolhem prioritariamente esta atividade e se dizem pescadores.
O tempo estrutural- antigamente e hoje em dia
Na Barra do Jucu coexistem pelo menos três gerações de pescadores artesanais. Uma, a primeira, que viveu um período, marcado pela fartura do pescado, quando não havia luz elétrica ou água encanada, e que pode ser simbolizado pela figura do Seu Írio, pescador de 92 anos, um dos mais antigos ainda vivos, mas que não pesca mais.
Outra geração, a segunda, viveu um período de transição, quando o cotidiano da Barra do Jucu e da pesca na Praia da Concha começaram a se transformar sensivelmente e pode ser simbolizada por Seu Paulo Lira, de 66 anos, que já não se dedicou exclusivamente à pesca, mantendo um emprego de topógrafo na Prefeitura de Vila Velha, no qual se aposentou.
A geração mais nova, por sua vez, corresponde aos pescadores que têm por volta de 30 anos e que vivem o que alguns mais antigos chamam de “fim da picada”: um tempo marcado pela escassez do pescado e onde é praticamente impossível viver só da pesca.
É importante ressaltar que alguns pescadores com quem conversei têm, em grande medida, uma visão do tempo diferente da nossa noção abstrata de cronologia. Sem usar anos ou décadas, o que lhes marca o tempo são, com muito mais freqüência, os eventos significativos dentro do seu curso de vida. Dessa forma, essa situação assemelha-se aquela descrita por Woortman sobre comunidades pesqueiras do litoral do Rio Grande do Norte:
Para que eu traduzisse essa percepção do tempo naquela que é familiar a nós, tive que transformar a temporalidade vivida (...) na nossa cronologia abstrata de forma que (...) é claro que não posso precisar dia, mês e ano mas apenas tempos aproximados (WOORTMAN, 1992, p.55).
Quando iniciei meu trabalho de campo e comecei a ter os primeiros diálogos com os pescadores, pude perceber que, além das já referidas sazonalidades que nos permitem apreender seus ritmos sociais cíclicos, suas narrativas deixavam clara uma visão dicotômica do tempo histórico, que pôde ser percebida pela contraposição recorrente do tempo de antigamente ao tempo de hoje em dia.Estes dois momentos são distintos, pois marcam períodos onde as condições concretas da reprodução do modo de vida e de trabalho dos pescadores se alteraram significativamente.
Se o passado, ou o antigamente, remetem à fartura e ao sucesso da pescaria, tanto no mar quanto no rio, remetem também a um tempo onde era difícil vender o pescado (que precisava ser levado a Vila Velha), onde faltava infra- estrutura básica (energia; água encanada) e onde todo o material de pesca, salvo os anzóis, e a maioria dos alimentos e bens consumidos eram produzidos pelos pescadores e suas famílias: “não tinha nada de fio de náilon não, era linha Ursa, que a gente cochava no carro, de primeiro se cochava linha no carro, no carrinho, nós ia tudo cochar linha , hoje não, já compra tudo pronta, né? ( Seu Alceste)’’
O presente, ou hoje em dia, por sua vez, se por um lado é marcado pelo maior acesso à infra- estrutura, bens de consumo (incluindo materiais de pesca) e ao mercado, é também marcado pela escassez do pescado que, segundo os pescadores, não permite mais que uma família se sustente só de pesca.
Tal dicotomia na visão do tempo tem como pontos de referência alguns processos e transformações ocorridos no espaço e que são fundamentais para a compreensão das mudanças que aconteceram ao longo do tempo na Barra do Jucu e que afetaram significativamente a vida dos pescadores da Praia da Concha. Como nos diz Woortmann (1992, p. 43) em seu estudo sobre comunidades pesqueiras do nordeste: “Ao longo do tempo, o espaço se modificou e essa modificação é construtora da temporalidade histórica”.
Uma das questões mais presentes no discurso dos pescadores e mais importantes para a compreensão desta visão dicotômica do tempo, é a progressiva degradação do rio Jucu, acentuada a partir do final da década de 1980, que aparece, em suas falas, como fator determinante para explicar a escassez do pescado. Segundo Seu Alceste, pescador de 77 anos, “(...) quando dava um vento sul e o mar engrossava, não podia pescar no mar, o que valia era o rio, era robalo, carapeba, tiucupá, era tudo que é variedade de peixe”.
Com a degradação do rio os pescadores perderam uma importante alternativa de pesca: se antigamente podiam contar com esta opção nos dias de mar grosso, hoje em dia não lhes resta outra opção senão ter outro emprego fixo ou fazer alguns bicos. Além disso, também a escassez do pescado no mar é associada à poluição do rio uma vez que, segundo me informaram os pescadores, diversas variedades de peixes pescados no mar se reproduzem na região do rio e dos mangues.
Além da degradação do rio, outros processos espaciais exteriores ao mundo local dos pescadores passaram a ter importância, nas representações deles, para explicar a passagem do tempo de fartura ao tempo de escassez. Em várias ocasiões vi os pescadores se referirem aos sucessivos aterros feitos nas praias da Grande Vitória e ao quebra-mar do Porto de Tubarão como responsáveis, segundo eles, por fazerem com que a água e os peixes corressem mais por fora.
Tais percepções dos pescadores a respeito das transformações no espaço e, por conseguinte, das suas condições concretas de existência, são formuladas para dar significado aos processos de mudança que vivenciam e, dessa forma, dão, em grande medida, origem à um sentido de temporalidade que, no caso dos pescadores da Praia da Concha, pode ser traduzido na dicotomia passado/ fartura, presente/ escassez.
Esta visão dicotômica do tempo reaparece quando Paulo Lira menciona um tempo quando havia, na Barra do Jucu, um capataz, designado pela Capitania dos Portos que regulava toda a atividade pesqueira. Segundo Paulo Lira “não passava a rede de arrasto na hora que quisesse não, tinha que falar com o Capataz (...)”.
Marcelo também faz referência à falta de organização posterior à saída do capataz: “antes era obrigado a correr o lance, hoje não, (...) esses lance tão aí faz mais de ano sem correr (...)”. Pode-se perceber por estas duas falas que o fim do controle exercido pelo capataz marca dois tempos bem distintos nas representações dos pescadores: o passado, relacionado à ordem formalizada, garantida pelo capataz e o presente, marcado por uma ordenação mais informal das atividades pesqueiras à qual alguns se referem como “bagunça”.
Tanto o controle do capataz sobre a rede de arrasto quanto sobre a corrida dos lances são questões que desenvolvo especificamente mais adiante. O que quero realçar aqui é o quanto a ausência do capataz representou mudanças significativas nas práticas de pesca a ponto de servir como referência nas representações dos pescadores sobre seu passado comum.
A construção, em meados dos anos de 1980, da escadaria que dá acesso à Praia da Concha, por sua vez, representou uma reconfiguração da dinâmica social deste espaço, com repercussões nas percepções do tempo. Se antes os pescadores tinham a Praia da Concha como um espaço exclusivamente seu, a partir deste momento passam a dividi-lo com pescadores esporádicos, de outros lugares, e com banhistas, principalmente no verão (tempo quente) e nos fins de semana.
Segundo as percepções dos pescadores com quem conversei, se a escadaria, por um lado, tornou mais prático o acesso deles à Praia da Concha, por outro, tornou-a mais acessível, também, para qualquer um.
Como conseqüência desse acesso irrestrito, os pescadores passaram a conviver com novos elementos, como a sujeira deixadas por banhistas, roubos e danos ao seus materiais e a presença de pescadores esporádicos “de fora” que aumentam a competição pelo pescado, apesar de não haver aparentemente nenhum conflito entre pescadores locais e os que são incorporados de outros lugares, já que muitas vezes há “conhecidos” que intermediam a chegada de novos pescadores.
Percebe-se, portanto, que os eventos numa representação linear e fragmentada do tempo, construída pelos pescadores, são produto das várias experiências vividas pelo grupo, todas elas possuindo forte significado comum. Entre estes eventos percebemos e nos referimos acima às mudanças no meio ambiente (como a degradação do rio Jucu), à construção da escadaria que dá acesso à Praia da Concha e ao fim do controle do capataz sobre as atividades de pesca locais.
Estes eventos, ao modificarem substancialmente as condições em que os pescadores reproduzem suas atividades pesqueiras, tornam-se significativos para o grupo, compondo assim, um quadro de memórias, trajetórias e episódios partilhados pela grande maioria dos pescadores.
Localização no mar
Ao contrário da impressão de indiferenciação que pode ter um leigo quando lança seu olhar sobre o mar, os pescadores constroem uma sofisticada territorialidade marítima que os permite diferenciar entre regiões mais piscosas, regiões mais seguras, criando assim lugares socialmente significativos aos quais atribuem diferentes valores (MALDONADO, 1993; FORMAN, 1970; KANT DE LIMA & PEREIRA, 1997).
Acheson (1988) quando analisa a pescaria de lagostas no estado de Maine, nos EUA, se refere a territorialidade como um mecanismo através do qual certos direitos exclusivos de uso de determinados lugares no mar são estabelecidos e mantidos. Aqui, no então, gostaria de estender um pouco este entendimento de territorialidade ao processo de apropriação simbólica do mar de uma maneira mais geral, o qual pode ou não implicar em sistemas de propriedade.
Quando vão ao mar, os pescadores da Praia da Concha acessam uma série de espaços específicos, os chamados pesqueiros, que são os lugares onde costumam pescar de linha ou armar algumas de suas redes de espera. Estes pontos possuem, em geral, fundo de pedras ou lama, o que, segundo os pescadores, atrai os peixes .
Alguns pontos, como a Ilha, são visíveis e facilmente localizáveis. Outros, porém, nem tanto. O acesso a estes pontos, por sua vez, depende de um saber local e de um conhecimento a respeito dos espaços no mar bastante peculiares e que lhes permitem localizar tais pontos pesqueiros com um alto grau de confiabilidade.
Pra fazê-lo, os pescadores utilizam pontos em terra como referência para marcar espaços na água. Marcam dois conjuntos de dois pontos alinhados a partir do mar visando a terra. Quando eles estão numa posição no mar tal que, fazendo duas visadas, podem ver alinhados cada um dos dois conjuntos de pontos, eles sabem que estão situados no ponto pesqueiro. Trata-se, portanto, de um processo conhecido por nós como triangulação. Neste caso a referência aos conjuntos de pontos duplos, a partir de um ponto no mar, substitui o que, numa triangulação comumente entendida, seria feita por medidas de ângulo referentes à apenas dois pontos separados visíveis na direção da costa.
Segundo os pescadores, este alinhamento dos pontos forma a letra “L”:
(...) por exemplo, você alinha em cima, ou seja, no norte, dois pontos, podem ser o Convento e uma antena alta, e embaixo mais dois pontos, pode ser Araçatiba e outro morro, quando você alinhar a baitera às marcas, em cima e embaixo, você tá no pesqueiro (Marcelo).
A maior parte dos nomes das baixas se refere aos pontos em terra, utilizados com referência, como é o caso da baixa do Morro da Seira que se refere ao morro Mestre Álvaro. Outros três exemplos de nomes de pesqueiros: Roças Velhas, Sacambu, Tapinambi5 .
O direito de botar a rede
Hoje em dia os lugares privilegiados de suas vivências enquanto pescadores são o mar e a Praia da Concha. No mar, esta apropriação do espaço pode ser notada e simbolizada pela presença dos trasmalhos boeiros, localizados a cerca de 50m da praia, e que chamam a atenção de quem percorre a escadaria que leva à Praia da Concha.
Estes trasmalhos boeiros são fixados com uma corda (rabicho) a partir de uma estaca de madeira presa às pedras do Morro da Concha. Daí eles são esticados para o mar até um determinado ponto, onde são amarrados a uma espécie de âncora (arinque). Estes instrumentos e esta operação são denominados lances. A partir deste primeiro lance, outros vão sendo instalados e amarrados seqüencialmente em cada arinque, em geral completando doze lances. Portanto, entre todos os lances existe somente um amarrado à pedra. Cada lance sendo feito com a rede de um pescador, o lance é próprio do pescador e, conseqüentemente, também o é o produto da pescaria.
No passado, quando na Barra do Jucu havia um capataz que fiscalizava a pesca, os pescadores eram obrigados a correr o lance, ou seja, fazer um rodízio entre os lances: quem ontem estava no décimo segundo lance, hoje vai para o primeiro e assim por diante. Isso ocorria porque, segundo os pescadores, os peixes malham (emalham) mais nos primeiros lances, que ficam mais próximos às pedras onde correm os cardumes.
Segundo os pescadores com quem conversei, como Seu Alceste e Marcelo, esta regra era rigidamente respeitada e cumprida, sob o risco de serem penalizados pelo capataz que poderia suspendê-los da pesca pela infração. Hoje em dia, porém, não há mais este tipo de controle sobre o direito de botar as redes, de maneira que alguns pescadores mantém um direito permanente aos primeiros lances.
Segundo Dirceu6, este direito permanente é um assunto que, quando vem à tona, costuma provocar discussões entre os pescadores. Isso pode ocorrer quando algum dos pescadores insiste em querer fazer correr o lance, o que, no entanto não costuma acontecer: “...o que acontece é que alguns são mais arrogantes e se impõem (...) aqueles trasmalhos estão daquele jeito (sem correr) faz mais de anos, mas o pessoal, para evitar briga, deixa pra lá... (Dirceu)’’ mas Dirceu faz ainda uma ressalva: ‘‘ (...) mas se resolverem que querem correr tem que correr, não tem essa não, mas do jeito que tá ruim de peixe, tanto faz.’’ Ou seja, parece não haver muita disputa para o revezamento, ou seja, correr o lance pois, de qualquer maneira, o pescado está escasso.
Alguns como Felipe7,no entanto , se referem à questão de uma maneira bem mais irônica, chamando de “donos do mar’’ os pescadores que se opõem a correr o lance para não abrirem mão de suas posições privilegiadas.
Esta situação se assemelha em parte à descrita por Zarur (1984) entre pescadores da Flórida que mantém um sistema de propriedade dos pontos mais piscosos no mar, que pertencem às famílias tradicionais locais e são transmitidos por herança (ou, às vezes, mudam de dono depois de serem abandonados). Segundo o autor, este sistema de propriedades busca limitar o acesso aos pontos pesqueiros em função das circunstâncias impostas pelo mercado e pela crescente escassez de pescado.
Ainda não possuo dados suficientes para indicar todas as implicações e lógicas pertinentes ao sistema de propriedade dos lanços na Praia da Concha. No entanto, a fala destes dois pescadores acima e as observações que fiz sugerem uma situação um pouco diferenciada da descrita por Zarur já que, apesar de se tratar também da limitação do acesso a certos pontos piscosos, na Praia da Concha esta restrição carece de legitimidade, e é motivo de controvérsias, questão que ainda não pude desenvolver satisfatoriamente.
NOTAS FINAIS
Além de oferecer um campo bastante rico para posteriores investigações sobre os conhecimentos e formas de sociabilidade possíveis entre pescadores, a relevância deste estudo se liga ao fato de se debruçar sobre um dos grupos sobre os quais há ainda pouca atenção antropológica, qual seja, os de pescadores artesanais do litoral do estado do Espírito Santo.
A identificação dos elementos que constituem o que Maldonado (1993) chamou de maritimidade permite-nos articular de maneira rica o específico, peculiar às relações e construtos estruturados localmente e, ao mesmo tempo, identificar os universais das culturas marítimas, ou seja, o conjunto de práticas concretas e simbólicas que permeiam as atividades dos pescadores em qualquer lugar do mundo e em qualquer escala de produção, seja artesanal ou industrial.
Aqui busquei analisar como noções universais como tempo e espaço tomam forma entre pescadores da Praia da Concha e como alguns eventos como a poluição do rio e o fim do controle do capataz sobre as atividades de pesca locais modificaram as relações com os espaços e produziram um sentido de temporalidade histórica, recorrentemente traduzido, entre estes pescadores, na oposição passado/fartura e presente/escassez.
Mapa rodoviário onde se pode visualizar o bairro Barra do Jucu e a distância relativa do centro da cidade de Vila Velha.
BIBLIOGRAFIA
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1*Bacharel e Licenciado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Espírito Santo (2005).
2 Secretaria Especial de Aqüicultura e Pesca.
3 São chamadas de nuvens sólidas pois são compostas de cristais de gelo. São as mais altas, normalmente formadas a mais de 5.000 metros de altitude. Sua aparência estriada faz com que sejam também conhecidas como "rabo de galo”.
4 As redes de espera boeiras são as que segundo os pescadores locais capturam os peixes que vivem na “flor da água”, ou seja, próximos à superfície.
5 Este sistema de marcação foi identificado em diversos outros grupos pesqueiros, entre estes os estudados por Maldonado (1993), Forman (1970) e Kant de Lima & Pereira (1997).
6Dirceu é um pseudônimo que criei para preservar o pescador que me deu tal informação, uma vez que esta questão é demasiado polêmica e poderia intensificar conflitos internos.
7 Idem 6

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