terça-feira, 15 de abril de 2008

Resenha de "Pescadores de Itaipu: meio ambiente, conflito e ritual no litoral do Estado do Rio de Janeiro", de Kant de Lima & Pereira.


Aluno: Márcio De Paula Filgueiras.
Curso de Métodos em Antropologia
Professor: Marco Antônio Mello
Resenha do livro:
Kant de Lima, R. & Pereira, L. Pescadores de Itaipu: meio ambiente, conflito e ritual no Estado do Rio de Janeiro. Niterói: EdUff, 19971.
O livro "Pescadores de Itaipu: meio ambiente, conflito e ritual no litoral do Estado do Rio de Janeiro" tem como texto principal a dissertação de mestrado do Professor Roberto Kant de Lima, apresentada ao Programa de Pós ­Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, em 1978. Mas inclui também a monografia de finalização de curso de Ciências Sociais na Universidade Federai Fluminense, realizada por Luciana Pereira, em 1996.
A apresentação de Luis de Castro Faria oferece logo de início a possibilidade de visualizarmos o lugar das duas pesquisas, diante do panorama de produções a respeito de grupos pesqueiros no país.
Pensando não tanto em termos cronológicos, mas no tipo de interesse que orienta as pesquisas, Castro Faria identifica uma primeira fase onde predominam os esforços direcionados à nacionalização, disciplina e gerência da produção pesqueira e uma outra em que predominam especialistas não ligados à academia, mas atuando como técnicos a serviço da burocracia do Estado.
A terceira fase seria aquela na qual podemos incluir o livro de Kant de Lima & Pereira, onde os trabalhos são produzidos na academia e para a academia, assim como os de Luiz Fernando Dias Duarte (em Jurujuba/RJ, 1978), Mariza Peirano (em Icaraí/CE, 1975) entre outros.
Itaipu é um bairro localizado na chamada Região Oceânica da cidade de Niterói, no estado do Rio de Janeiro. O trabalho de Kant parte de uma apresentação do local da pesquisa e do grupo de pescadores, suas representações e descrição dos equipamentos e operações de pesca.
Passa então a uma análise do conhecimento naturalístico e sua importância para a reprodução da atividade, segundo um quadro de regras sociais que regulam a apropriação do produto da pescaria. Em seguida Kant analisa o ritual da pesca da tainha.
Revestido da previsibilidade e da perspectiva de ganhos extraordinários, a pescaria da tainha se mostra como momento fundamental para o grupo, em que se afirmam hierarquias internas, mas também a identidade do grupo para fora de Itaipu.
Considerando os esquemas teóricos de interesse preliminares à pesquisa, Kant esclarece que estava interessado numa visão de Itaipu que permitisse referi-Ia aos princípios que regiam a produção e transmissão do conhecimento, permitindo a reprodução da pescaria local.
Para realizar a pesquisa, Kant optou por definir Itaipu a partir das representações locais e não a partir de critérios externos ao grupo de pescadores, como os cartográficos ou administrativos.
A Itaipu que lhe interessava era então, primordialmente, a dos pescadores filiados a companhas locais. A partir da identificação deste grupo o autor pôde se aproximar dos princípios e regras que ordenam a vida local e conformam identidade, o que Kant sugere a partir de Mauss, quando este propõe que é a participação num conjunto compartilhado de regras e valores de conduta e comportamento que define um grupo.
Durante o trabalha de campo, o pesquisador se envolveu com os grupos de pesca, chamados localmente de companhas, chegando a se filiar a uma companha específica, participando das atividades produtivas e recebendo em troca o que lhe cabia após cada operação de pesca.
Com o tempo a companha à qual se filiou se mostrou estar inclusa no grupo de canoas grandes, que têm importância destacada em Itaipu, por voltar-se no inverno ao ritual de pesca da tainha, momento fundamental para a afirmação da identidade do grupo. Isso tem conseqüência na análise do antropólogo, em que a pescaria de canoa grande tem destaque.
Como conta o autor, havia, a princípio, certo estranhamento, por parte dos pescadores, a respeito de suas intenções. Mas com o tempo a lógica da reciprocidade que envolve o processo de produção permitiu que o pesquisador encontrasse seu lugar no grupo. Kant destaca ainda a solidariedade que passou a receber do grupo após um afastamento em função da morte de seu pai, o que lhe permitiu classificar como carinhosa o tipo de relação que se estabeleceu.
Em seu texto, Kant de Lima aborda aspectos de mudança social, ao mostrar como a especulação imobiliária modificou certas relações que os pescadores tinham com os espaços, já que passaram a morar mais afastados da praia, o que acarretou custos mais altos para realizarem as operações de pesca.
A chegada da imobiliária Verplan, no entanto, parece ser absorvida pelos pescadores como a continuação da "cabeça de burro", categoria local que se refere às instâncias de poder que agem sobre o contexto da pesca e que, antes da Verplan, eram simbolizadas pelos proprietários de terras, que controlavam o acesso à lagoa, entre outras coisas.
Kant de Lima indica que este tipo de relação se baseia numa tradição política fundada na patronagem, em que observa-se "uma malha de relações jurídicas, de deveres e obrigações recíprocas que se entrecruzam na vida social" (p.58).
Nesta situação a moradia era condição de dependência do proprietário da terra, dependência expressa na prestação de serviços pessoais e na subordinação à sua autoridade e poder econômico, pois ele era também dono do único armazém. Segundo Kant de Lima, havia exploração, mas também possibilidade de acumulação para adquirir pescaria e transmitir por descendência, o que hoje é bem mais difícil de ocorrer pela diminuição dos retornos econômicos da pesca.
Como a leitura permite perceber, a ênfase do autor está na reprodução da identidade do grupo de pescadores de Itaipu através do ritual da pesca da tainha, que alcança o auge de sua expressão no inverno. Kant mostra como este momento é capaz de afirmar a identidade do grupo em um contexto em que as condições de sua reprodução estão em processo de modificação.
Como esclarece Kant, a partir de Godelier, há de se explicitar os fatores envolvidos no processo de produção. Estes são, em Itaipu, fundamentalmente, os instrumentos e materiais de pesca, o saber naturalístico, e o pertencimento ao local, que permite a inclusão numa companha e a conseqüente participação no sistema de direito à vez que regula o acesso ao mar.
As companhas são a denominação nativa para as equipes que pescam juntas numa mesma pescaria. O termo pescaria remete tanto à atividade de pesca, quanto ao equipamento necessário para realizá-Ia, pertencente ao dono de pescaria. As companhas são estruturas hierárquicas em que é marcante a posição do mestre como coordenador das operações de pesca e mediador com grupos externos.
Ao mestre cabe a responsabilidade da pescaria: comandar a pescaria, tomar decisões sobre quando, quanto e onde pescar. Ele deve sair na popa, orientar a puxada da rede, mediar a comercialização e distribuição do produto. Supervisiona também o trabalho, inclusive a conservação do material. No entanto, é consenso nos grupos de pesca que todos companheiros devem trabalhar na manutenção do material.
No inverno, durante as operações de pesca da tainha realizadas pelas canoas grandes são acrescentados mais dois papéis à estrutura da companha: o contra mestre e o vigia. Segundo Kant de Lima, existe uma noção de carreira a ser percorrida por um pescador, segundo posições no barco que estão ligadas por sua vez a hierarquias da técnica.
A distinção entre pescaria de canoa grande e pescaria de canoa pequena marca a estrutura da pesca em Itaipu. A pescaria de canoa grande é considerada localmente como a mais tradicional do lugar e realiza o lanço à sorte, principalmente no verão, e a pescaria de cerco, marcantemente no inverno.
No inverno, grandes cardumes de tainha aproximam-se da costa e são capturados através do cerco, momento de grande mobilização na praia, de afirmação de hierarquias internamente ao grupo e de afirmação de identidade do grupo de pescadores para fora de Itaipu.
É fundamental para entender a pescaria de canoas grandes, a explicitação do direito à vez. Este se mostra como um conjunto de regras locais através das quais as companhas organizam a utilização do espaço da praia e o direito de realizar o cerco e o lance à sorte.
Como explicita Kant de Lima, o caráter público da praia e do mar requer a existência de sistemas de direitos temporários que regulem sua apropriação, efetuada em caráter privado, pelos grupos de pesca, e que encontra sua legitimidade no consenso do grupo.
Em Itaipu a pescaria de canoas grandes exerce-se, portanto, de acordo com certas regras, que se constituem num direito local capaz de controlar as contradições surgidas pela exploração individualizada de um bem comum e limitado. ­
As companhas de canoa pequena, por sua vez, realizam principalmente a pesca com redes de espera. Na pescaria realizada com canoas grandes, não há segredo sobre lugares de pesca, mas um sistema de direito à vez que organiza as operações de pesca. Já na pescaria de canoa pequena, as redes são colocadas mais afastadas da praia e a localização dos pontos de pesca é controlada através do segredo.
Como observou Kant, o parentesco tem grande importância na filiação aos grupos de pesca. No caso das pescarias de canoas pequenas, parece que o parentesco age como força centrífuga, lançando membros que se tornam adultos para fora das companhas, mas como força centrípeta em relação ao grupo de canoas pequenas como um todo.
Em relação às pescarias de canoas grandes, o parentesco parece ser importante fonte de recrutamento, ainda que pessoas de fora sejam eventualmente admitidas e incorporadas.
Há conflitos entre as companhas de canoas pequenas e as de canoas grandes porque se diz que os peixes mortos pelas redes de espera (canoa pequena) afastam os cardumes que seriam capturados pelas redes de arrasto (canoa grande).
Como os donos de pescarias de arrasto têm cada vez menos poder político, ao contrário do passado quando organizavam festas na comunidade, as companhas de canoas grandes acabam tendo que ver sua produção diminuir sem visualizar mecanismos para reverter a situação.
As pescarias de Itaipu possuem então uma estrutura competitiva em dois níveis: entre canoas grandes e canoas pequenas, que disputam recursos comuns (peixes), mas com estratégias diferentes; e internamente ao grupo de canoas grandes e ao grupo de canoas pequenas, onde o acesso aos espaços de pesca se baseia, no caso das canoas grandes, no direito à vez, e no caso das canoas pequenas, no segredo sobre os pontos de pesca a serem explorados.
Em relação ainda à segmentação entre canoas pequenas e canoas grandes, Kant demonstra como esta se expressa nas representações sociais sobre o espaço, o que está de acordo com as proposições de Durkheim e Mauss sobre a relação entre as representações coletivas e a morfologia social.
Isto está fortemente presente na distinção entre Porto Pequeno e Porto Grande. Estes, no entanto, não esgotam os pontos de pesca, que podem variar de informante para informante, mas não deixam de constituir elementos fundamentais das representações locais.
Kant investiga o saber naturalístico local a partir da perspectiva da ciência do concreto, cuja lógica foi exaustivamente explicitada por Lévi-Strauss, com destaque para a denúncia da falácia de que, ao contrário do conhecimento científico, a ciência do concreto só se interessaria pelos elementos do ambiente que fossem diretamente úteis para a sociedade em questão.
O antropólogo apresenta então uma série de variáveis que são consideradas pelos pescadores no momento de produzir os prognósticos sobre as condições de pesca. Entre elas estão os ventos, basicamente classificados em "do mar" e "da terra", fortes e fracos, melhores ou piores.
Os pescadores também observam atentamente a influência da lua sobre o movimento da maré e o deslocamento das espécies. Da mesma forma, a aparência da água, sua temperatura e a correnteza também influenciam as expectativas dos pescadores sobre a quantidade e qualidade do pescado que pode ser capturado.
A análise do saber naturalístico e sua importância como fator de produção que precisa ser adequadamente manipulado permitiu a Kant a construção de quadros elucidativos que resumem a relação de diferentes variáveis como vento, correnteza, marés, na construção dos prognósticos de pesca.
Apesar, no entanto, deste conhecimento refinado, algumas vezes as pescarias fracassam. Os pescadores dão dois tipos principais de explicação para isso: 1) externa ao grupo, culpando agentes poluidores e pesca predatória; 2) explicam também pelo azar. Muitos pescadores confessam discretamente que acreditam que certas ocorrências podem trazer azar, apesar de atribuir-se este tipo de crença aos mais velhos. Um exemplo de quebra de conduta seria a prática de embarcar com a confiança exagerada de que vai matar peixes.
Kant de Lima retoma aqui Bourdieu e a proposição de que, enquanto nas sociedades capitalista o futuro é a mera realização de metas previstas, para as sociedades tradicionais, a tentativa de apoderar-se do futuro se constitui em ambição diabólica.
Explicitando o conhecimento nativo sobre os ritmos naturais, Kant identifica uma dicotomia fundamental entre verão e inverno. Utilizando as proposições de Evans-Pritchard, o autor mostra como, em Itaipu, essas categorias que organizam o tempo estão relacionadas com a mudança nos ritmos e atividades do grupo em questão.
O verão é marcado por uma maior dispersão do grupo de canoas grandes, já que realizam nesta época principalmente o lanço à sorte, que produz uma mobilização menor dos pescadores e cujo produto é o que chamam localmente de "salada de peixes", ou seja, uma variedade maior de espécies já que as condições de previsibilidade nesta época do ano são menores.
No inverno a situação se altera significativamente. A pescaria da tainha, realizada através da técnica de cerco, se mostra como momento altamente aglutinador do grupo de pescadores. Isso porque, ao ocorrer com maior previsibilidade, produz grande expectativa pelos retornos econômicos que confere de uma vez só, quando de cercos bem sucedidos.
A operação de cerco da tainha envolve uma coordenação precisa das atividades, momento em que a hierarquia da posição de mestre se faz prevalecer e é mesmo exigida, já que como ouviu Kant de seus informantes, ao mestre não basta saber pescar, é preciso saber mandar.
O período de inverno também é fundamental para a afirmação da identidade dos pescadores para fora de Itaipu. Como nesta época o sucesso da pescaria conseguia reverter, mesmo que momentaneamente, os efeitos negativos dos processos de mudança que ocorriam no lugar, a pescaria da tainha aparece como momento ritual de singular importância para afirmação da identidade do grupo de pescadores. Mais adiante esclarecemos melhor no que se constitui concretamente este ritual da pesca da tainha.
Kant interpreta os diferentes ritmos do verão e do inverno como aspectos de communitas e de estrutura, tomando as elucidações de Turner sobre uma visão processual da vida social.
Communitas se refere à dimensão em que o grupo se pensa como um todo homogêneo, em contraste aos outros grupos. Já estrutura se refere à dimensão hierarquizada da vida coletiva, onde pode-se visualizar diferentes atores ocupando diferentes posições dentro da estrutura do grupo.
Dessa forma a dispersão do verão caracterizaria uma ênfase em communitas, enquanto o inverno uma ênfase na estrutura. Kant ressalta, no entanto, o cuidado de não pensarmos em momentos estanques, mas em processos, pois no período do verão e no período do inverno, communitas e estrutura não são formas fixas, mas sístoles e diástoles permanentes.
A distinção entre inverno e verão expressa bem a noção de tempo ecológico desenvolvida por Evans-Pritchard, como expressão das relações que uma sociedade estabelece com os ritmos naturais, orientada por seus ritmos sociais.
O tempo estrutural, por sua vez, como reflexo das relações entre os grupos e indivíduos dentro da estrutura social, vai encontrar seus marcos nos acontecimentos significativos, como a construção da estrada, o casamento de fulano e assim por diante.
Isso tem forte relação com a construção do passado do grupo, em que representam Itaipu como tendo "mais vida própria", quando havia mais fartura de peixe, e assim por diante. A partir das discussões de Bourdieu sobre sociedades tradicionais, Kant mostra como a perspectiva de futuro do grupo de Itaipu não se realiza de um ponto de vista abstrato, mas como projeção do passado. Daí as dificuldades em articular as condições de mudança do presente com a visão tradicional do tempo.
O momento em que Kant estudou o grupo se mostra, portanto, como momento de indefinição a respeito da possibilidade do grupo digerir as mudanças a partir de sua estrutura tradicional ou de ocorrer o inverso, as transformações digerirem a estrutura do grupo, discussão que o autor realiza com a contribuição de Godelier.
Como observou o antropólogo, na medida em que forem os acontecimentos digeridos pelo sistema, como a utilização do náilon e a comercialização por via rodoviária, por exemplo, a identidade permanece.
O risco do acontecimento digerir a estrutura se liga uma possível ingerência excessiva no estilo de vida e na organização tradicional da produção, como parece ser o caso no progressivo desprestígio dos patrões locais e aumento da pesca de rede de espera.
A questão da reprodução da identidade se coloca então como algo problemático, pois pode envolver transformações das estruturas de produção e das representações do grupo. Acentuam-se assim os problemas de identidade do grupo diante da impossibilidade de definir-se como tradicionalmente o fazia, como dizem os pescadores, pela produção, em vista da transformação do lugar em loteamento turístico
Como bem demonstrou Kant, a pesca da tainha é momento fundamentai para o grupo de pescadores de Itaipu, de forma que o autor procura pensar o cerco como ritual de afirmação de identidade. São quatro os momentos deste ritual: a espera, o cerco, a puxada e o leilão.
Durante a espera o grupo se encontra disperso, jogando futebol, namorando, conversando. Esse momento é seguido da operação de cerco, momento de grande atenção e exercício de uma técnica apurada e comunicação quase silenciosa, em que afirma-se a hierarquia do mestre no interior das companhas.
Logo em seguida a puxada ameniza novamente hierarquização do cerco, de maneira que várias pessoas se juntam ao grupo para ajudar a puxar a rede, há gritaria e descontração. Já no momento do leilão a hierarquia do mestre se impõe novamente. A utilização dos modelos de communitas e estrutura de Victor Turner aqui são de grande valor para a análise das representações sobre o trabalho.
Ao aparecerem como movimentos de sístole e diástole constantes, a alternância de ênfase entre communitas e estrutura durante o ritual da tainha mostra como para os pescadores de Itaipu trabalho e lazer não são momentos estanques do cotidiano, mas coexistem com maior ou menor proeminência, dependendo do contexto da situação.
O momento final do ritual, o leilão, é o momento em que o mestre aloca o produto da pescaria no mercado. Isso, no entanto, não esgota o circuito nem os princípios de circulação do produto.
Kant retoma seis autores, Godelier, Sahlins, Polanyi, Carneiro, Lévi-Strauss e Mauss para discutir os princípios de circulação do produto da pescaria em diferentes circuitos, internos e externos ao grupo, que estão relacionados a diferentes estruturas de relações sociais.
Se concentrando no modelo de Sahlins, mas adaptando-o para a realidade local, Kant apresenta um continuum que vai da reciprocidade generalizada (em que membros não produtivos do grupo, ou externos a ele, recebem peixe, reafirmando a desigualdade de posições), passando pela reciprocidade equilibrada (em que troca-se o trabalho por peixe, segundo o esforço e a competência técnica, sejam companheiros ou não) até a reciprocidade negativa (que envolve a alocação do produto no mercado).
Cada tipo deste de reciprocidade vai encontrar gradações internas. A reciprocidade generalizada vai da doação à membros não produtivos como idosos, parentes ou pessoas necessitadas, à doação a pessoas de posição social superior, às quais se pretende agradar.
Kant de Lima sugere que este circuito de troca pode ser visto como forma de aprovisionamento de relações sociais que vão encontrar contrapartida na reciprocidade dos parentes, colegas ou na tentativa de criar laços com pessoas de posição social superior, algumas vezes externas ao grupo.
A reciprocidade equilibrada vai do direito dos companheiros a retirar peixes para seu consumo ao peixe que é dado para não companheiros que colaboram, mas precisam reivindicar sua parte.
A reciprocidade negativa vai das vendas a prazo para pessoas conhecidas, às vendas sem facilidades a restaurantes locais que não costumam dar regalias aos pescadores.
O leilão, como momento da reciprocidade negativa, é quando afirma-se a posição do mestre e quando sua capacidade de alocar adequadamente o produto no mercado é colocada à prova.
Realizado o leilão e vendidos os peixes, 30% do valor fica para os equipamentos (pescaria), para a manutenção dos mesmos, e o resto é dividido entre os companheiros segundo a hierarquia de cargos, de maneira que um companheiro de remo ganha 10%, um mestre de 12% a 15%, o vigia percentuais semelhantes aos do mestre e o contramestre de 10% a 12%.
O valor destinado à pescaria, de propriedade do dono de pescaria, afirma um significativo elemento de contradição na pesca de Itaipu. Isso porque, enquanto a propriedade dos meios de produção é particular, a companha é uma entidade fundamentalmente coletiva.
A análise dos princípios de apropriação e circulação do pescado permitiu a Kant perceber que, como sugere Bourdieu, o valor do produto ultrapassa seu equivalente em moeda, já que agregam-se a ele diversos valores oriundos das formas de apropriação e de combinação dos fatores de produção e de outros aspectos do contexto local.
Dessa forma, devido às próprias circunstâncias que presidem a atividade produtiva, as representações da utilização de seu produto, ou seja, do consumo, sofrerão sua influência. Como observou Kant, estas podem ser definidas por uma preferência dada ao consumo em detrimento da reserva ou acumulação.
O consumo e as representações a respeito dele estão, portanto, vinculadas às do trabalho. Este é realizado pelos pescadores de maneira bem diferente da realizada pelos operários, já que os ritmos dos pescadores não estão presos a um tempo abstrato, mas ao ritmos das populações naturais e às atividades que organizam o processo produtivo.
O consumo suntuário em mariscadas onde se congregam amigos, parentes e companheiros é momento fundamental de comensalidade e afirmação da identidade do grupo que recebe pessoas de fora e se apresenta a elas. Da mesma forma, estes são momentos de afirmação de igualdade e coesão entre os companheiros.
As festas representam um importante momento de apropriação do excedente para fins rituais, quando afirma-se a posição dos donos de pescaria, que financiam parte da festa junto da Colônia, e afirma-se também a identidade do grupo, em contraste com outros lugares em que as festas, como de São Pedro e São Sebastião também se realizam.
Partindo da descrição e análise dos fatores envolvidos no processo de produção, o texto de Kant de Lima nos permite vislumbrar a estrutura social do grupo de pescadores de Itaipu, e o lugar do grupo em relação à sociedade mais abrangente, com destaque para o ritual da pesca da tainha.
O ritual da pesca da tainha é, portanto, momento fundamental na afirmação da identidade do grupo e da ideologia de que a atividade é viável economicamente. Ao ocorrer com alto grau de previsibilidade e possibilitando ganhos extraordinários, o ritual se apresenta como momento singular no calendário local.
As operações de captura da tainha são o momento central do inverno, a síntese da vida comunitária de Itaipu, como aponta Kant de Lima, constituindo­-se numa apropriação ritual do excedente para reafirmação da estrutura social e da identidade do grupo. Cria-se um circuito de produção, repartição e consumo de bens e serviços simbólicos, que vai além do econômico, abrangendo a totalidade da vida social do grupo.
O texto de Kant de Lima possui uma linearidade que nos permite alcançar níveis gradativos de complexidade analítica, passando da descrição de equipamentos, da estrutura do grupo, até vislumbrarmos como diferentes esferas da vida como a reciprocidade, a hierarquia social e a identidade se conjugam de maneira extraordinariamente previsível no ritual da pesca da tainha.
Se pensarmos do ponto de vista da crítica ao estruturalismo, elaborada de maneira pontual por Van Velsen, em seu artigo intitulado “A análise situacional e o método de estudo de caso detalhado2”, talvez pudesse ser sugerido que o texto de Kant de Lima possui uma ênfase estruturalista.
Van Velsen sugeriu que neste tipo de abordagem as ações dos indivíduos ficam submersas em princípios gerais, que podem ser tanto abstrações dos antropólogos quanto dos nativos. No texto de Kant de Lima, em função da ênfase na análise do processo de produção e da estrutura do grupo, às vezes podemos ter a impressão de que ficam obscurecidos os atores individuais, vivenciando situações concretas.
Na etnografia de Kant de Lima não vemos os personagens em sua individualidade, como no texto de Foote Whyte, por exemplo. No livro “Sociedade de Esquina3” o sociólogo americano explicita claramente as tragetórias individuais de alguns moradores de Cornerville, em especial Doc, seu interlocutor privilegiado.
Por outro lado, devemos ter em mente que em uma pesquisa existem diversas dimensões da vida social que podem ser enfatizadas. No texto de Kant de Lima temos acesso à dimensão ritual da vida dos pescadores de Itaipu de uma maneira que talvez não fosse possível sem a ênfase no significado do processo de produção como um todo e na dimensão estrutural do grupo, o que acaba por enfatizar uma visão mais geral, mas não necessariamente empobrecedora, já que o ritual congrega de uma só vez diferentes esferas da vida que se encontram dispersas nos momentos mais ordinários do processo social.
A segunda parte do livro contempla a monografia de conclusão de curso de Ciências Sociais realizada em 1996 por Luciana Pereira, na Universidade Federal Fluminense.
O objetivo de sua pesquisa foi apreender as mudanças ocorridas em Itaipu desde a pesquisa de seu orientador, Kant de Lima, em 1978. Luciana usa como instrumento para construção da etnografia as fotos da primeira pesquisa que contrasta com as que tirou. Une a isso entrevistas informais e entrevistas estruturadas.
A princípio Luciana foi à praia acompanhada de seu orientador, mas com o tempo e a aproximação ao grupo, lhe foi possível enveredar sozinha pelo campo.
As fotografias se mostraram produtoras de um feed back positivo na relação com os pescadores, como acontecera com Kant de Lima, o que facilitou a aproximação ao grupo. Da mesma forma serviram como um forte estímulo à memória coletiva.
Segundo Luciana, apesar da fotografia ter surgido no mesmo período que a Antropologia e de se debruçar em grande medida sobre o mesmo objeto, ou seja, o homem vivendo seu cotidiano em grupo, experiências que congreguem conjuntamente as duas atividades são poucas e recentes. Salvo precursores como Margaret Mead e Malinowski.
Um elemento que aparece de maneira marcante na análise das mudanças locais é o aumento da pesca predatória. Os pescadores destacam aí as traineiras, grandes barcos motorizados, e os "bombeiros" que explodem bombas no mar, e outros tipos de exploração vista pelos pescadores como responsáveis pela diminuição do pescado.
Pereira destaca ainda a emissão de esgoto da região no mar de Itaipu e a presença de turistas na praia, dificultando as operações de pesca. Retrata também o próprio afastamento dos pescadores da praia, em função das desapropriações ou venda de casas para uma empresa imobiliária.
Interessante notar como esses processos já tinham sido apontados por Kant de Lima, o que permite tomar sua etnografia como sensível às dinâmicas que envolvem o grupo.
Pereira afirma que a estrutura do grupo de pesca continua segmentada fundamentalmente em canoas pequenas e canoas grandes. A pescaria da tainha, no entanto, parece já não apresentar o sentido que tivera há vinte anos atrás.
Com a diminuição dos cardumes, a pescaria se tornou menos previsível e seus retornos menos extraordinários. Isso fez com que os pescadores buscam outras alternativas financeiras e que, consequentemente, a atividade não fosse capaz de reproduzir seu caráter aglutinador.
Como mostra Pereira, os pescadores têm tentado se organizar para reivindicar direitos, chegando a enviar uma carta à prefeitura de Niterói com vistas a tentar garantir a utilização da praia como local de trabalho, diante da quantidade de quiosques e turistas que atrapalham as atividades produtivas.
No entanto as respostas não têm sido à altura das necessidades do grupo. Seja por ingerência, falta de estrutura ou de vontade política, Pereira mostra como o poder público ainda não foi capaz de organizar políticas consistentes para o grupo de pescadores artesanais.
A construção da fábrica de gelo, em vias de se concretizar, oferece uma perspectiva de relação mais igualitária entre pescadores e atravessadores, uma vez que podendo armazenar o pescado, os pescadores não ficam mais sob a pressão de que, se não aceitarem o preço oferecido, mesmo que baixo, a produção perecerá.
As festas locais continuam acontecendo e com apoio de donos de pescaria. Interessante observar como estas atividades continuam sendo realizadas mesmo com a redução dos ganhos de pesca. Isso vem corroborar a proposição de Kant de Lima de que o excedente é sempre relativo e depende da forma que o grupo escolhe para estruturar seu consumo.
Em relação à participação das mulheres nas atividades ligadas à pesca, parece que esta agora é mínima, seja pela adoção de materiais sintéticos que demandam menos a mão feminina, seja pelo próprio ingresso das mulheres no mercado de trabalho, principalmente como empregadas domésticas. As crianças por sua vez são desestimuladas a se tornarem pescadores, em função das perspectivas negativas da atividade.
Estes dois textos se conjugam bem na compreensão da vida dos pescadores de Itaipu. Realizados em momentos diferentes, com um espaço de quase vinte anos entre um e outro, permitem uma visão diacrônica fundamental para a análise de injunções de mudança no local.
Mais adiante, em 2004, uma outra monografia de conclusão de curso de Ciências Sociais na Universidade Federal Fluminense, realizada por Bruno Mibielli, vai dar continuidade à análise das mudanças em Itaipu.
Em seu texto, a constatação do "sumiço da tainha" alicerçada sobre o acompanhamento principalmente das atividades do mestre Cambuci vai permitir vislumbrar uma nova significação do tempo, em que o inverno deixa de ser o momento do acontecimento ritual em função de uma concentração maior no verão como período de maior possibilidade de ganhos.
Itaipu parece assim inesgotável, do ponto de vista da pesquisa etnográfica. Podemos visualizar com clareza a semelhança da pesquisa antropológica com a agricultura de derrubada e queimada: quando o lugar cultivado parece ter-se esgotado, o retorno em um período posterior permite a renovação do ciclo produtivo, como sugeriu o professor Marco Antônio Mello em comunicação durante uma aula de Métodos em Antropologia no Programa e Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF).
NOTAS:
1 Nesta resenha considerei que não seria necessário reproduzir as referências bibliográficas dos textos citados por Kant de Lima & Pereira e que menciono ao longo da escrita. As referências que se encontram em notas de roda pé são dos textos que utilizo e que não se encontram na bibliografia de Kant de Lima & Pereira.
2 IN: Feldman-Bianco, B. Introdução. Antropologia das Sociedades Contemporâneas: Métodos. Global. São Paulo: 1987, p.7-45.
3 Whyte, William Foote. Sociedade de Esquina. Jorge Zahar Editor. Rio de Janeiro: 2005.

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