Aspectos sócio-estruturais do tempo entre os pescadores da Barra do Jucu
Márcio Filgueiras, mestrando em Antropologia da Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF)
Resumo
Neste artigo vamos apresentar alguns elementos do saber naturalístico dos pescadores da Barra do Jucu, assim como suas representações sobre as sazonalidades naturais e como estas participam da estruturação de um ritmo anual de pesca que explicita mudanças regulares nas relações entre os pescadores e entre as pescarias. Como veremos, existe uma categoria nativa, chamada “olho grande”, que dá significado social a estas mudanças sazoneiras, compondo uma etiqueta local que regula tanto as relações dos homens com a natureza, quanto as relações dos homens entre si.
Aspectos sócio-estruturais do tempo entre os pescadores da Barra do Jucu
O tempo do peixe é igual o tempo de Deus, não vem quando a gente quer não, só vem quando Deus quer (Aílton Laranja, neto de pescador, vendedor de peixe e puxador de baitera na Praia da Concha)1.
Neste artigo, vamos apresentar alguns elementos do saber naturalístico dos pescadores da Barra do Jucu, assim como suas representações sobre as sazonalidades naturais e como estas participam da estruturação de um ritmo anual de pesca que explicita mudanças regulares nas relações entre os pescadores e entre as pescarias.
Como é comum a este tipo de atividade, as pescarias da Barra do Jucu dependem para seu êxito de um conhecimento naturalístico que produz prognósticos capazes de diminuir os riscos e incertezas da produção. Isso porque, uma das primeiras coisas a se destacar no que se refere às relações entre sociedade e natureza na pescaria (Kant de Lima & Pereira, 1997; Maldonado, 1994; Acheson, 1988) é o fato de que o processo produtivo se debruça sobre um meio em grande medida instável, o mar, e sobre objetos que possuem grande mobilidade, os peixes. O saber naturalístico (Lévi-Strauss, 1970) que é constituído num contexto deste tipo, se estrutura como um modelo probabilístico que busca conjugar as condições do mar, dos ventos, das correntes, com o movimento e hábitos das espécies que se visa capturar. Este saber se consubstancia em regras técnicas cuja obediência condiciona seu êxito (Kant de Lima & Pereira, 1997: 100).
Para os propósitos deste trabalho delimitamos as pescarias da Barra do Jucu a partir do ponto de vista dos principais interlocutores da pesquisa, os pescadores locais, que se sentem herdeiros de uma longa tradição de pesca. Quando questionados sobre as “pescarias da Barra do Jucu” estes pescadores mencionam atualmente as pescarias com rede de espera e com linha, realizadas a partir da Praia da Concha, e a pescaria com rede de arrasto, realizada preferencialmente a partir da Praia do Peitorí e, eventualmente, a partir da Praia da Barrinha e da Praia Grande.
Aqui vale uma breve descrição da praia do Peitorí e da Praia da Concha, principais palcos das pescarias observadas. A Praia da Concha é o local mais tradicionalmente ligado à pescaria de mar no bairro, possuindo águas em geral mais “calmas” que a Praia do Peitorí. Ser pescador da Barra do Jucu e ser pescador da Praia da Concha são referências que muitas vezes se confundem nos discursos nativos. Esta praia, que é contígua ao Morro da Concha, possui uma área relativamente pequena e que varia dependendo da incidência do vento, sendo que o vento sul “aterra” a praia, aumentando sua área e o vento nordeste “cava”, acarretando o efeito contrário. O acesso a ela é através da praia do Peitori, principal praia do bairro, situada ao sul, do outro lado da pedra da Concha. Alcança-se a Concha através de uma escadaria construída no morro da Concha em meados da década de oitenta. Os pescadores realizam um grande esforço para trazer os peixes nas costas quando o sucesso da pescaria é grande.
A praia do Peitorí, por sua vez, é muito mais extensa, se iniciando na encosta do Morro da Concha e seguindo no sentido sul, muitos quilômetros, ao longo dos quais vai recebendo diversos outros nomes (Cemitério, Arrecife Pequeno, Arrecife Grande, Praia Grande, etc.), até chegar ao bairro de Interlagos. O acesso à praia do Peitorí é através de rua calçada com paralelepípedos, de forma que não impõe dificuldades a pedestres ou veículos motorizados.
O leitor verá, portanto, que damos destaque às pescarias realizadas no mar contíguo ao litoral do bairro. Os pescadores localizam por volta da década de oitenta o recrudescimento da poluição e assoreamento do Rio Jucu. Atualmente a pescaria realizada neste rio ainda acontece, mas de maneira não sistemática e principalmente em busca de iscas para a pescaria de mar. No inverno, quando os cardumes de tainhas estão entrando pela boca do rio, há um aumento da pescaria no mesmo. Ainda assim, a atividade pesqueira no Rio Jucu não é mais a sombra do que foi no passado, quando era alternativa segura para os dias de mar agitado e até mesmo modalidade de pesca preferencial de alguns pescadores. Assim, se investigar a pescaria do rio certamente revelaria um repertório vastíssimo de conhecimento técnico e naturalístico, principalmente com a colaboração dos pescadores “antigos”, me pareceu que esta pescaria não era mais suficientemente significativa do ponto de vista sociológico.
Enquanto a pescaria de arrasto é realizada em no máximo três lugares possíveis2, de conhecimento de todos, tanto a pesca com rede de espera quanto a pescaria de linha dependem para o seu êxito do conhecimento de lugares piscosos no mar. Há quatro tipos de fundo na região: pedra, cascalho, lama e areia. A cada tipo de fundo correspondem espécies de pescado que se espera capturar (por exemplo, a pescadinha esta relacionada à lama, o baiacu às pedras). Estes fundos possuem gradações, de maneira que os pescadores identificam lugares em que é “areia com lama”, lama mais ou menos grudenta, “pedra rasa”, “pedra grossa”, “ baixa” , entre outros.
A localização destes pontos de pesca é feita a partir de marcas em terra, prática identificada por diversos autores em outros grupos de pesca (Kant de Lima & Pereira, 1997; Acheson, 1988; Forman, 1970; Maldonado, 1994; Gladwin, 1970, Mello & Vogel, 2004). Para cada ponto pesqueiro no mar existe uma combinação de marcas de terra correspondentes. O conhecimento e a capacidade de lembrar destas marcas são essenciais para encontrar os lugares de pesca e as redes, já que os pescadores não utilizam aparelhos como o GPS (Global Positioning System), um sistema de posicionamento por satélite amplamente usado por navegadores em todo o mundo. Dessa maneira, conhecer e lembrar das marcas em terra são condições para o sucesso da pescaria e fatores de distinção técnica entre os pescadores. Um pescador me explicou que, mesmo conhecendo as marcas do ponto pesqueiro, é preciso ter experiência e inteligência para saber encontrar com exatidão a “lama certa”.
Presenciei situações em que pescadores experientes se divertiam com episódios em que outros pescadores perderem suas redes, “enrocadas” nas pedras, tentando “segui-los”. Situações deste tipo permitem identificar a tensão existente entre maximizar o sucesso da pescaria e o risco de perder ou danificar o equipamento (ver Acheson, 1988:97). Nas pescarias das quais participei observei que a garatéia3 era usada algumas vezes como instrumento para “garatear” o fundo (na ocasião que presenciei, de pedra), permitindo caracterizar gradações em que as pedras eram maiores ou menores. Outras vezes a chumbada, que compõe o equipamento da pescaria de linha, também pode ser usada para identificar o tipo de fundo, dependendo da maneira que sentem ela batendo no fundo do mar: “na areia bate firme e fica; nos cascalhos ela dá tipo um quiquezinho; na pedra ela enroca logo” (pescador local) .
Após ter participado de algumas pescarias, me chamou atenção o fato de que meus parceiros falavam das marcas em terra como se elas, e não nossa embarcação, estivessem se mexendo, de maneira que era uma tal casa que estava “andando” em uma direção ou em outra ou então me explicavam a localização do ponto pesqueiro dizendo, “quando aquele morro que parece um dedo estiver no meio do Morro da Concha”. De maneira parecida, Gladwin (1970) identificou que os nativos do atol de Puluwat (Ilhas Carolinas/EUA) falavam sobre as ilhas que iam deixando pra trás em suas navegações como se elas, e não a embarcação, estivessem se mexendo. Nas pescarias da Barra do Jucu, no entanto, não se trata de navegar distâncias sem ter a visão de terra e guiando-se pelas estrelas, como em Puluwat. Nas pescarias das quais participei as marcas em terra não serviam para calcular distancias percorridas, como o sistema Etak nas Ilhas Carolinas, mas para localizar lugares no mar. De toda forma, o que há em comum nos dois sistemas, que aparentemente discorrem em “erro” por creditarem movimento às ilhas ou marcas em terra, é que são maneiras convenientes de organizar as informações que as pessoas têm à sua disposição para fazer seus julgamentos navegacionais prontamente e sem confusão, se tratando portanto de um dispositivo prático que garante a orientação (:182).
O fato dos pescadores da Barra do Jucu se aterem às características do sensível ao falarem do seu sistema de localização como um em que morros ou árvores se movem aproxima este sistema da noção de ciência do concreto, como desenvolvida por Lévi- Strauss (1970). Segundo o autor, esta maneira de proceder no conhecimento do mundo envolve modos de observação e de reflexão “exatamente adaptados a descobertas de um certo tipo: as que a natureza autoriza, a partir da organização e da exploração especulativas do mundo sensível em termos de sensível” (: 37).
É também esta atenção às propriedades sensíveis que fornece as condições para os pescadores formularem uma lógica classificatória dos tipos de fundo que existem na região (pedra, areia, lama e cascalho) e as condições que cada um destes tipos oferece para a ocorrência de determinados tipos de peixe, que por sua vez são divididos em peixes que dão na lama, como a pescadinha e a pescada ou que dão nas pedras, como o baiacu e a carapeba, havendo ainda os que podem ser encontrados em dois ambientes. Como pude observar, os peixes podem ser classificados ainda em reimosos ou não, dependendo da “força” de sua carne, que pode interferir negativamente, por exemplo, sobre processos inflamatórios. Outra maneira de classificar os peixes que identifiquei distinguia entre peixes de pele, como a espada, peixes de couro, como a guaibira e peixes de escama como a pescadinha, sendo que cada um demanda um procedimento específico durante sua “limpeza”.
Percebi também que em relação à nomenclatura dos pontos pesqueiros o tipo de fundo não é o único aspecto do lugar que funciona como atributo de classificação, de maneira que, assim como no caso dos peixes, que podem ser classificados segundo a força da sua carne ou pela sua pele, não há um critério absoluto (Silva, 1989: 66) de ordenação dos pontos de pesca. Dessa forma, algumas vezes o critério pode ser a paisagem, como no caso da Tapera (que faz referência a um morro), ou então o fato do lugar ter sido freqüentado por determinado pescador, estando ligado ao tempo estrutural do grupo, como a bacia do Felogomes ou o pedregulho de Calazans.
Dessa maneira, as três variáveis classificatórias identificadas por mim na Barra do Jucu coincidem com as encontradas por Colaço (2006) quando explicita os nomes dados aos lugares de pesca pelos pescadores da Lagoa Feia em Campos dos Goytacazes-RJ: a primeira seria a constituição do fundo da Lagoa; a segunda as formas pertencentes à paisagens acessíveis ao olhar a partir do lugar; a terceira a associação a nomes próprios ou apelidos, tais como reteve a memória local (:66).
Diversos pescadores com que conversei a procura de informações sobre os nomes dos lugares de pesca me disseram que este saber está se perdendo, que quem conheciam muitos nomes eram os antigos. Uma das razões que me apresentaram para isso foi o fato de a paisagem, que oferece as marcas para localizar os pesqueiros, foi muito modificada nos últimos anos, matas foram derrubadas, morros foram postos abaixo para extrair barro, de maneira que muitas marcas foram simplesmente perdidas. No entanto, como o sucesso das pescarias de rede de espera (de fundo) e de linha depende fundamentalmente do conhecimento de lugares piscosos, a redução do escopo do conhecimento não significou seu desaparecimento, servindo ainda como elemento de distinção técnica.
Os pescadores da Barra do Jucu possuem também uma representação fundamental a respeito das sazonalidades naturais que se expressa na distinção entre o verão, ou tempo quente (Nov- Mar), e o inverno, ou tempo frio (Abr-Out), que compreendem respectivamente duas metades do ano. Essa representação sobre o tempo corresponde à noção de tempo ecológico proposta por Evans- Pritchard (1978), como expressão das relações entre o grupo e os ciclos naturais. Cabe lembrar, no entanto, que não se trata de uma transposição mecânica dos ritmos naturais sobre as representações do grupo, mas antes de uma apropriação consciente dos ritmos naturais pelos pescadores, segundo as atividades pelas quais se interessam e que realizam, o que imprime o sentido social do tempo ecológico. A referência aos meses correspondentes ao tempo quente e ao tempo frio, por sua vez, não deve ser tomada aqui como algo rígido, porque os pescadores não dividem as duas metades do ano em função dos meses, mas em função das mudanças sazonais que selecionaram para orientar os ritmos de suas atividades, de maneira que o começo do tempo frio, por exemplo, pode chegar mais cedo em um ano do que em outro.
Ao tempo frio e ao tempo quente correspondem, por um lado, diferentes características predominantes do ambiente natural que demandam um saber naturalístico e procedimentos técnicos específicos, e por outro, diferentes formas de estruturar as relações entre as diferentes pescarias da Barra do Jucu. Como veremos mais adiante, é em grande parte através da categoria “olho grande” que os pescadores compreendem essas mudanças regulares nas relações entre os pescadores e as pescarias. Vamos abordar em primeiro lugar os aspectos naturalísticos do tempo frio e do tempo quente e em seguida seus aspectos sócio-estruturais.
No tempo quente há uma predominância do vento nordeste. Este vento está geralmente associado a um “tempo bom” para a navegação, porque o Morro da Concha protege as águas da Praia da Concha. Neste período, além da pescaria com rede de espera e de linha, realiza-se também a pescaria de arrasto. Já no tempo frio o vento predominante é o vento sul. Este vento produz condições inversas às do vento nordeste, já que “pega a Concha de frente” e torna a saída pro mar bastante arriscada, configurando o que chamam de “mar grosso”. Em dias deste tipo, pude observar situações em que os pescadores alinham suas baiteras de frente para o mar e vão saindo, embarcação por embarcação, numa ordem que é em grande medida a ordem dos mais habilidosos, já que os menos habilidosos passam muito mais tempo esperando o mar “amansar”.
Mais que a direção do vento, importa aos pescadores a força com que este está soprando. Ventos muito fortes tornam a pescaria mais desgastante, principalmente se o pescador não tem motor. E tornam-na também mais perigosa, por causa das ondas laterais, as “maresias”, que ameaçam encher a baitera de água. Ondas grandes, mesmo sem vento, são perigosas, principalmente na entrada e na saída do mar. Em situações em que os pescadores enfrentam um temporal no mar e as marcas de terra não podem ser visualizadas, as ondas servem como orientação, já que sabem que elas estão sempre “jogando pra terra”, ainda que não possam saber se o vento e a corrente estão levando-os mais para o sul ou mais para o norte. As variações de intensidade dos ventos e das ondas ocorrem tanto no tempo quente quanto no tempo frio, mas de maneira geral os pescadores concordam em relacionar o tempo quente ao vento nordeste e ao “mar manso” e o tempo frio ao vento sul e ao “mar grosso”.
Em relação à ocorrência de peixes, a maioria dos pescadores concorda que antigamente, como costumam dizer, as épocas de cada peixe eram mais bem delimitadas. Hoje dizem que a pesca não possui a mesma previsibilidade. No entanto, os pescadores reconhecem que alguns peixes ainda possuem períodos bem marcados. Dessa forma, o tempo quente é em grande medida o tempo do xinxarro, da manjuba e da pescadinha. Neste período grandes cardumes destes peixes se aproximam da costa, perseguindo as “comidinhas”, peixes pequenos que atraem outros maiores. Já o tempo frio é em grande medida o tempo do baiacu. Neste período a pescaria de linha prevalece sobre a de rede de espera e rede de arrasto, em parte pelas condições do mar, mas também porque o baiacu não pode ser capturado de outra forma senão de linha e com a utilização de um pedaço de aço próximo ao anzol como já foi dito. Nos dois primeiros meses do tempo frio (março e abril), além do mar estar mais constantemente “grosso”, também é um período de menor piscosidade, porque as “comidinhas” do verão já se afastaram da costa, mas os cardumes de baiacu ainda não são encontrados. A partir do final de maio e começo de junho o baiacu já apareceu e o mar possui mais dias de calmaria (ainda não tanto quanto no tempo quente) de maneira que a pescaria se torna “animadora” como me explicou um pescador. A partir do mês de agosto, com o vento nordeste cada vez mais constante a pescaria segue com regularidade até o final do verão.
Ouvi também dos pescadores que, para matar peixe, eles têm preferência pela água “correndo”, seja para o sul ou para o norte, já que quando a água “pára” o sucesso da pescaria é menor porque o peixe também “pára de correr”. Alguns pescadores me relataram preferência pela água que corre do norte para o sul por esta ser mais piscosa.
Já em relação às variações de maré a maioria dos pescadores me expressou preferência pela “maré morta”, relacionada aos quartos crescente e minguante da Lua. Um pescador, no entanto, que é reconhecido pelos outros como um bom pescador, me expressou preferência pelas marés que variam bastante, relacionadas à Lua cheia e nova, segundo ele porque essas “alvoroçam os peixes”. Pude observar então que, enquanto há uma concordância mais ou menos geral sobre as mudanças sazonais relacionadas ao tempo quente e ao tempo frio, outros elementos como a preferência pela maré não são tão consensuais, mas sofrem influência da experiência pessoal dos pescadores. Todos concordarão que a maré, a época do ano, a direção da água, influenciam na ocorrência dos peixes, mas como cada um vai interpretar estes elementos do ambiente e relaciona-los, varia.
Vimos então que, em linhas gerais, o tempo quente corresponde ao período do ano em que o mar costuma estar manso, o que significa bom para a navegação. É neste período que se aproximam da costa cardumes de “comidinha” que são peixes pequenos, que atraem outros maiores. Como a água costuma permitir melhor visibilidade no tempo quente, é relativamente fácil, mesmo para não pescadores, visualizar esses cardumes. A maior ocorrência de peixes, associada às boas condições de navegação do mar, fazem com que se intensifique a atividade pesqueira e com os pescadores pescando mais próximos da praia que no inverno. Como dizem os pescadores, no verão “o olho cresce”.
As expressões “olho grande” ou “olho gordo” são muito importantes para a compreensão das relações entre os pescadores da Barra do Jucu. Elas constituem acusações recorrentes entre eles e dificilmente alguém escapa de ser acusado eventualmente de “olho grande”. Geralmente, quando agem de um modo que sabem incitará este tipo de acusação, os pescadores o fazem sob a justificativa de “sacanear” alguém que julgam tê-lo “sacaneado” antes. Isso ocorre quando alguém diz ter tido sua rede “cercada” pela de outro pescador, ou deliberadamente por pescadores de rede de espera para prejudicar a pescaria de arrasto. Como veremos, “olho grande” é também uma categoria nativa chave para a compreensão das mudanças sazonais nas relações estruturais na pescaria da Barra do Jucu, ao mesmo tempo em que designa uma espécie de controle moral da exploração dos recursos e da competição entre os segmentos da pescaria e internamente aos mesmos. Enquanto categoria social, esta expressão funciona, portanto, como “princípio de juízo e raciocínio” (Mauss, apud Cardoso de Oliveira, 1979: 40) estruturante de uma etiqueta que busca regular tanto as relações dos homens com a natureza quanto as relações dos homens entre si4.
Como vimos, é no verão que, além da pescaria com rede de espera, realiza-se também a pescaria com rede de arrasto. No tempo frio esta modalidade de pesca dificilmente é realizada, já que o mar costuma estar grosso, difícil para navegação, e os peixes estão “correndo mais por fora”5. É, portanto, no verão, quando o mar está menos agitado e há um aumento da piscosidade conhecido e previsto socialmente, que as relações estruturais entre a pescaria com rede de arrasto e as pescarias da Praia da Concha (com rede de espera e como linha), em grande medida distendidas ou “adormecidas” no tempo frio, se tornam observáveis. Estas se caracterizam por uma maior competição e conflitos, já que os pescadores consideram o verão também como o tempo da acumulação, que vai garantir reservas monetárias para os dias de mar grosso do inverno, quando chegam a ficar mais de uma semana sem poder ir ao mar. É por isso que os pescadores dizem que o verão é o período em que o “olho cresce6”. Nota-se então que a expressão “olho grande” acrescenta um significado social à distinção sazonal entre tempo quente e tempo frio.
Como pude observar, no verão, alguns pescadores que possuem rede de espera ou pescam de linha chegam a lançar tarrafas, a partir de suas baiteras, sobre os cardumes que a pescaria de rede de arrasto busca capturar, algumas vezes depois de o cardume já estar “dentro da rede”, num gesto explicitamente desafiador. Outras vezes alocam suas rede de espera num local que sabem irá prejudicar o arrasto.
Como vemos nos trabalhos de Pessanha (2003) e Kant de Lima & Pereira (1997), em Itaipu, até pelo menos a década de 1970, a pescaria com rede de espera possuia uma “posição de inferioridade, em termos globais, com relação à pescaria de arrasto” (Kant de Lima & Pereira, 1997: 93). O cerco da tainha era a operação que conjugava um reforço das hierarquias internas do segmento à projeção da identidade do grupo para fora de Itaipu. Bruno Mibieli (2004), mostrou como com o sumiço da tainha no inverno, a pescaria de arrasto teve seu poder político reduzido, expresso no afrouxamento das regras que ordenam os lugares de pesca, já que as redes de espera deixaram de ser retiradas durante o dia no inverno (:29-30). Já em Arraial do Cabo, pelo menos até 1989, Britto (1999) identificou que entre as modalidades locais de pesca:
o cerco é, de longe, aquela que goza de maior prestígio junto à população local. Isso decorre, em parte, do fato de ser um sistema que propicia, em geral, um rendimento mais elevado. Mas, também, pelo seu reconhecimento enquanto sistema de trabalho que conjuga melhor os atributos de saber e arte ao fator sorte e , sobretudo, pelo seu papel de catalizador das relações sociais (:59)
Na Barra do Jucu, ao que parece, as pescarias da Praia da Concha, com rede de espera e linha possuem um prestígio maior que a de arrasto. Alguns pescadores mais antigos falam que, antigamente, os donos das redes de arrasto deviam consultar os donos de rede de espera e fazer um acordo de dar a estes uma parte da produção a cada lance. O fato de que não se verifica mais a prática de dar uma parte aos donos de rede de espera pode ser interpretada como indício de uma redução relativa do poder político da pescaria da Praia da Concha. Ainda assim, as pescarias da Praia da Concha ainda são vistas, pelos pescadores locais, como as mais representativas das pescarias da Barra do Jucu, pelos motivos apontados a seguir.
A pescaria de rede de espera e de linha são realizadas o ano inteiro e em sua maioria por pescadores, senão nativos, ao menos longamente estabelecidos na Praia da Concha. A pescaria de arrasto, por outro lado, realizada exclusivamente no verão, envolvendo pessoas que não vivem da pesca o ano inteiro, é representada em grande medida como “ganância”, já que almeja ganhos altos num curto espaço de tempo, algumas vezes realizando uma seqüência de lances considerada excessiva pelos pescadores, oferecendo oportunidades para acusações de “olho grande”. Um pescador da Praia da Concha justificou assim sua oposição à pescaria com rede de arrasto: “passar uma vez, duas, quando vêem o cardume é uma coisa, agora ficar passando uma atrás da outra do jeito que eles passam já é olho grande”.
Além disso, esta pescaria é responsabilizada pela queda do preço dos peixes, já que os oferece em grande quantidade e também de implicar num acúmulo desproporcional de ganhos nas mãos do dono de pescaria. Como um pescador que não participa das pescarias de arrasto me explicou certa vez: “se não fosse o arrasto, cada parceria voltava com sua caixinha de peixe, mas com o arrasto só quem ganha é o dono de rede”. Um outro pescador da Praia da Concha que também não participa da pescaria de arrasto chamou atenção para o aspecto “capitalista” que a divisão do pescado permitia perceber.
Em relação aos valores atribuídos às diferentes pescarias de lagoa em Marica/RJ, Mello & Vogel (2004: 325) destacaram o menosprezo zelosamente cultivado pelos pescadores locais em relação à adoção dos arrastos em que, apesar de produzirem mais de uma só vez, prevalece a “força bruta”, em oposição à pesca de galho que estabelece os parâmetros de excelência das pescarias nativas. Além deste aspecto, os autores destacam ainda que os arrastos reduzem a participação das unidades domésticas na atividade primitiva. Portanto, assim como em Maricá, na Barra do Jucu os conflitos com o arrasto não se devem a um desprezo pelo excedente, mas ao fato de que nesta pescaria o excedente se concentra nas mãos do dono da rede enquanto nas pescarias da Praia da Concha os ganhos são repartidos de uma maneira considerada mais equilibrada.
Um outro aspecto que gostaria de destacar é que, como poucas pessoas da Barra do Jucu participam das pescarias de arrasto, mesmo como puxadores de rede, os donos de arrasto precisam contar com o trabalho de pessoas que moram num bairro adjacente, Terra Vermelha. Este bairro é bastante estigmatizado pelas pessoas da Barra do Jucu, já que é um bairro relativamente recente, que surgiu no final da década de oitenta e ao qual se atribui um nível alto de criminalidade. O fato da pescaria de arrasto envolver como puxadores de rede pessoas deste bairro contribui para a estigmatização da atividade como uma que, apesar de “ser da Barra”, os moradores nativos só se identificam parcamente.
Das três redes de arrasto existentes na Barra do Jucu (Raul, Fernando, Sinhô) apenas uma é de pescador da Praia da Concha (Raul), e ainda assim ele pesca lá há menos de um ano (agosto/2007). O fato de que um dos donos de rede se tornou há quase um ano (agosto/2007) pescador assíduo também na Praia da Concha é fator que traz para ele um argumento legitimador das operações de arrasto já que não se pode mais dizer dele que só pesca no verão. Isso, se por um lado parece remeter ao que tenho percebido como um aumento gradual de poder político da pescaria de arrasto, não chega a reverter as representações que sustentam a pescaria da Praia da Concha como a mais tradicional, menos predatória e a que permite uma participação mais igualitária no produto das pescarias.
Cabe ainda salientar que, por mais que de maneira geral haja uma concordância sobre os valores e significados atribuídos à pescaria de arrasto, como expus nos parágrafos anteriores, há de se levar em consideração que às diferentes posições na estrutura do grupo correspondem certas variações na perspectiva sobre a atividade. Dessa forma, da mesma maneira que encontrei pescadores da Praia da Concha que se recusam a participar da pescaria de arrasto, há outros que se envolvem eventualmente e um número reduzido trabalha nela quase todo verão. Assim, quando conversamos com os pescadores verificamos “gradações críticas” à pescaria de arrasto, que se revelam algumas vezes na ambigüidade de afirmar que ela pode ser responsável em parte pela redução do pescado, mas que ao mesmo tempo é uma pescaria “que sempre teve” e que se não for realizada com “olho grande”, ou seja, com lances excessivos “no escuro”, não é necessariamente tão danosa. Dessa forma, dependendo da ênfase que o pescador der sobre suas relações com a pescaria de arrasto, esta pode parecer como complementar à pescaria da Concha ou contraditória em relação à esta.
Britto (1999) no estudo de identidades ligadas às diferentes pescarias de Arraial do Cabo, retomou Da Matta (1976: 36) e relacionou a oposição entre cabistas e caringôs à identidades paradoxais, “visto que o segundo grupo conformaria uma categoria definida como ilegítima dentro do sistema de valores que sustenta a condição idealizada de cabista (:54)”. Já a oposição entre pescaria de rede e pescaria de linha, interna aos cabistas, “envolveria, ao contrário, identidades que se conjugam e se complementam”. Acredito que as relações entre a pescaria da Praia da Concha, com rede de espera e linha e, a pescaria de arrasto, que oscilam entre competição e complementaridade, estariam mais próximas da relação entre pescaria de rede e pescaria de linha em Arraia do Cabo do que da relação entre cabistas e caringôs, já que ao mesmo tempo em que podem haver conflitos, alguns pescadores da Praia da Concha participam regularmente da pescaria de arrasto, principalmente realizando o lance, de maneira que tanto a pescaria da Praia da Concha quanto a de arrasto são tidas como pescarias da Barra do Jucu, ainda que a pescaria da Concha seja vista de maneira geral como mais prestigiosa.
Nos estudos em Itaipu (Kant de Lima &Pereira, 1997; Pessanha, 2003; Mibieli, 2004) um dos fatores que explicavam a preponderância da pescaria de cerco era a previsibilidade extraordinária da tainha associada à possibilidade de ganhos que na são possíveis em outros períodos do ano, que não o inverno. Estes fatores faziam do inverno um momento especial de afirmação da identidade do grupo e da afirmação das hierarquias internas ao segmento. Com o sumiço da tainha, o verão passa a assumir uma preponderância maior que a do inverno, através do lance à sorte. Na Barra do Jucu, o verão também é o momento de maior piscosidade e possibilidade de ganhos. E é o momento em que as relações entre, por um lado, a pescaria da Concha (com rede de espera e com linha) e, por outro, a pescaria de arrasto, se atualizam e se tornam observáveis, num reforço da diversidade interna do grupo de pescadores da Barra do Jucu. Neste período a preponderância da pescaria da Concha, realizada o ano todo e que os pescadores de maneira geral consideram a mais representativa das pescarias da Barra do Jucu, entra em conflito com a pescaria de arrasto, tornando o tempo quente um momento paradigmático em que os significados destas pescarias e suas posições estruturais são confrontados e atualizados.
O verão também ocasiona um aumento das acusações de “olho grande”, internamente às pescarias da Praia da Concha. No tempo frio, com o “mar grosso”, a ocorrência do baiacu e o risco de perder as redes de espera contribuem para um predomínio da pescaria de linha. Esta modalidade de pesca permite que os pescadores compartilhem os lugares de pesca de maneira menos conflituosa. No tempo quente, com o aumento do uso das redes de espera, que ficam vários dias no mesmo lugar, as disputas pelos lugares de pesca ficam mais acirradas. É mais comum nessa época ouvir os pescadores reclamarem que suas redes estão “cercadas”, o que significa que algum “olho grande” alocou sua rede antecipadamente à do acusador, tendo por referência a direção para a qual a água está correndo. Deste modo os peixes são interceptados pela rede do pescador “olho grande”. Os pescadores dizem que “é só matar peixe num dia que no outro tem um monte de rede em volta”. Na pescaria de linha, por outro lado, as diferentes parcerias ficam muitas vezes poucos metros distantes umas das outras, apoitadas, pescando baiacu, sem que ocorram tantos conflitos. É por isso que, entre as pescarias da Praia da Concha, a pescaria de rede de espera é considerada “olho grande”, quando comparada à pescaria de linha. Além disso, a pescaria de linha é também o tipo de pesca preferido por vários pescadores em função de ser por eles percebida como a modalidade que “anima mais”, já que o pescador tem uma interação mais ativa na captura do peixe do que no caso da rede de espera.
Em Os Pescadores de Itaipu (Kant de Lima & Pereira, 1997) Kant de Lima nos mostra como o inverno possui para o grupo local a característica de aglutinar o grupo, ao mesmo tempo em que reforça as hierarquias, em um reforço da estrutura, esta pensada como a dimensão de uma sociedade em que ela se representa como fortemente marcada pelos papéis e funções sociais que a organizam. Em oposição a isto, o verão seria um período em que há uma ênfase na dimensão communitas do grupo, marcada pela dispersão e pela desordem, em que as posições estruturais ficam menos enfatizadas e o grupo aparece quase como uma coisa só, sem segmentações. Estas noções de estrutura e communitas Kant de Lima utilizou a partir da leitura de Turner (1974), e concordando com o autor, esclarece que não se tratam tanto de momentos distintos que se sucedem, mas de sístoles e diástoles constantes, ou seja, ênfases que se alternam, sem que nenhuma das dimensões mencionadas da vida social desapareçam completamente.
As representações sobre o tempo articuladas por um determinado grupo social não são, no entanto, estáticas. Bruno Mbieli (2004), como vimos, percebeu mudanças na significação do verão e do inverno em Itaipu, marcadas pelo sumiço da tainha, que acarretou em uma redefinição dos ritmos da atividade local, com o verão sendo a partir disso o período do ano em que depositam-se as maiores expectativas em torno da pescaria.
Se pensarmos em termos de communitas e estrutura para interpretar os significados do tempo quente e do tempo frio na Barra do Jucu, podemos dizer que, de maneira geral, no inverno prevalece um sentimento de communitas, com os pescadores pescando majoritariamente de linha, compartilhando os lugares de pesca, mais distantes da costa, de maneira menos conflituosa e competindo jocosamente entre si a respeito da captura de peixes nesta modalidade que é tida por muitos como a pescaria preferida. Já no verão há um reforço da estrutura, já que todas as modalidades de pesca estão em ação e exploram seus poderes políticos na disputa pelos lugares piscosos, concentrados nesta época do ano mais próximos da praia. Soma-se a isso o fato de que há um aumento considerável da piscosidade nesta época do ano, o que possibilita a realização de reservas econômicas (em dinheiro ou em produto) para o período conhecido como “maré de março” que antecede o aparecimento do baiacu, o que explica os pescadores se referirem ao verão como o tempo do “olho grande”.
Abaixo uma “roda” que tentar sintetizar as relações entre os aspectos naturais e sociais dos ritmos locais de pescaria:
Após o término do verão, o conflito fundamental entre a pescaria da Praia da Concha (com redes de espera e linha) e a pescaria de arrasto “adormece”, já que esta última deixa de ser realizada, pelas condições do tempo frio, em que o mar está mais “grosso” e os peixes “correndo mais por fora”. Estes conflitos podem, no entanto, ressurgir antes do retorno do verão, como aconteceu em setembro de 2006. em uma reunião em que produziram um documento com regras sobre o uso dos espaços, como veremos adiante. De toda forma, quero salientar que estes conflitos não são desestruturantes, fazendo antes parte do funcionamento “normal” da vida social do grupo e da estrutura das relações entre estas pescarias. Gostaria de retomar Van Velsen (1987) que chama atenção para a dimensão conflitiva da vida social, dizendo como:
Em todas as sociedades existem incongruências e contradições entre os vários conjuntos de normas nos diferentes campos de ação. Um problema que os membros de qualquer sociedade devem resolver é o de viver com estas incongruências através da manipulação de normas, de forma que as pessoas possam continuar a viver juntas numa ordem social (: 349)
Só quando trazemos este tipo de entendimento para o campo podemos compreender as tensões que envolvem episódios como o já mencionado, em que um pescador da Praia da Concha lança sua tarrafa sobre um cardume de peixes, depois deste já estar cercado pela rede de arrasto. Em uma situação destas, temos por um lado um pescador afirmando a Praia da Concha como lugar tradicional de pesca e fazendo oposição explícita ao que considera um lance excessivo de arrasto. Por outro, temos o dono da rede de arrasto se sentindo no direito de realizar tal lance porque considera que não tem realizado lances excessivos e que, além disso, se considera generoso na distribuição dos peixes. O fato é que há sempre argumentos que podem ser reunidos para defender uma posição ou outra. O que importa aqui é, seguindo a dica de Van Velsen, perceber como as normas de um grupo podem ser contraditórias em certos aspectos, sem que isso implique em que devamos tratar estas variações como exceções, devendo antes ser integradas numa compreensão dinâmica da estrutura normativa que organiza a vida social, no nosso caso, a pescaria de mar da Barra do Jucu.
Neste artigo tentei mostrar como os pescadores da Barra do Jucu se apropriam dos ritmos naturais locais para construir uma noção nativa de tempo ecológico, marcada por mudanças sazonais nas relações entre os pescadores e entre as pescarias. Como a pesquisa permitiu perceber, o verão é o momento paradigmático para a atividade, pelo aumento da piscosidade conhecido e previsto socialmente e porque é neste período do ano que as relações entre as pescarias da Praia da Concha (com rede de espera e de linha) e a pescaria de arrasto, são confrontadas e atualizadas. Esta percepção das mudanças sazonais nas relações entre as pescarias é expressa pelos pescadores através da categoria “olho grande” que funciona, portanto, como “princípio de juízo e raciocínio” (Mauss, apud Cardoso de Oliveira, 1979: 40) estruturante de uma etiqueta local que busca regular, tanto as relações dos homens com a natureza, quanto as relações dos homens entre si.
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1 A respeito da presença do numinoso nas representações dos pescadores sobre a atividade, ver Mello & Vogel (2004), que se referem à presença do sobrenatural como o “quarto parceiro, além dos homens, dos animais e das plantas” (:294).
2 Preferencialmente na Praia do Peitorí, mas também na Praia da Barrinha e na Praia Grande.
3 Termo nativo que designa um instrumento que funciona como âncora, feito pelos próprios pescadores, com vergalhões de ferro, cano pvc e cimento.
4 Vale ainda destacar que, enquanto a expressão “olho grande” designa usualmente na sociedade brasileira um tipo de infortúnio produzido por meios imateriais, como quando alguém explica a morte de uma pimenteira pelo “olho grande” que o vizinho colocou, podendo inclusive ser associada, neste sentido, à noção de bruxaria entre os Azande estudados por Evans- Pritchard, como sugeriu Giumbelli (2006), já que articula juízos morais e a atribuição de responsabilidade pessoal, no caso dos pescadores, “olho grande” está sempre associado a práticas concretas, como cercar a rede de fundo de alguém, ou realizar lances excessivos de rede de arrasto, mantendo, no entanto, a articulação entre juízos morais e a atribuição de responsabilidade pessoal.
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Neste artigo vamos apresentar alguns elementos do saber naturalístico dos pescadores da Barra do Jucu, assim como suas representações sobre as sazonalidades naturais e como estas participam da estruturação de um ritmo anual de pesca que explicita mudanças regulares nas relações entre os pescadores e entre as pescarias. Como veremos, existe uma categoria nativa, chamada “olho grande”, que dá significado social a estas mudanças sazoneiras, compondo uma etiqueta local que regula tanto as relações dos homens com a natureza, quanto as relações dos homens entre si.
Aspectos sócio-estruturais do tempo entre os pescadores da Barra do Jucu
O tempo do peixe é igual o tempo de Deus, não vem quando a gente quer não, só vem quando Deus quer (Aílton Laranja, neto de pescador, vendedor de peixe e puxador de baitera na Praia da Concha)1.
Neste artigo, vamos apresentar alguns elementos do saber naturalístico dos pescadores da Barra do Jucu, assim como suas representações sobre as sazonalidades naturais e como estas participam da estruturação de um ritmo anual de pesca que explicita mudanças regulares nas relações entre os pescadores e entre as pescarias.
Como é comum a este tipo de atividade, as pescarias da Barra do Jucu dependem para seu êxito de um conhecimento naturalístico que produz prognósticos capazes de diminuir os riscos e incertezas da produção. Isso porque, uma das primeiras coisas a se destacar no que se refere às relações entre sociedade e natureza na pescaria (Kant de Lima & Pereira, 1997; Maldonado, 1994; Acheson, 1988) é o fato de que o processo produtivo se debruça sobre um meio em grande medida instável, o mar, e sobre objetos que possuem grande mobilidade, os peixes. O saber naturalístico (Lévi-Strauss, 1970) que é constituído num contexto deste tipo, se estrutura como um modelo probabilístico que busca conjugar as condições do mar, dos ventos, das correntes, com o movimento e hábitos das espécies que se visa capturar. Este saber se consubstancia em regras técnicas cuja obediência condiciona seu êxito (Kant de Lima & Pereira, 1997: 100).
Para os propósitos deste trabalho delimitamos as pescarias da Barra do Jucu a partir do ponto de vista dos principais interlocutores da pesquisa, os pescadores locais, que se sentem herdeiros de uma longa tradição de pesca. Quando questionados sobre as “pescarias da Barra do Jucu” estes pescadores mencionam atualmente as pescarias com rede de espera e com linha, realizadas a partir da Praia da Concha, e a pescaria com rede de arrasto, realizada preferencialmente a partir da Praia do Peitorí e, eventualmente, a partir da Praia da Barrinha e da Praia Grande.
Aqui vale uma breve descrição da praia do Peitorí e da Praia da Concha, principais palcos das pescarias observadas. A Praia da Concha é o local mais tradicionalmente ligado à pescaria de mar no bairro, possuindo águas em geral mais “calmas” que a Praia do Peitorí. Ser pescador da Barra do Jucu e ser pescador da Praia da Concha são referências que muitas vezes se confundem nos discursos nativos. Esta praia, que é contígua ao Morro da Concha, possui uma área relativamente pequena e que varia dependendo da incidência do vento, sendo que o vento sul “aterra” a praia, aumentando sua área e o vento nordeste “cava”, acarretando o efeito contrário. O acesso a ela é através da praia do Peitori, principal praia do bairro, situada ao sul, do outro lado da pedra da Concha. Alcança-se a Concha através de uma escadaria construída no morro da Concha em meados da década de oitenta. Os pescadores realizam um grande esforço para trazer os peixes nas costas quando o sucesso da pescaria é grande.
A praia do Peitorí, por sua vez, é muito mais extensa, se iniciando na encosta do Morro da Concha e seguindo no sentido sul, muitos quilômetros, ao longo dos quais vai recebendo diversos outros nomes (Cemitério, Arrecife Pequeno, Arrecife Grande, Praia Grande, etc.), até chegar ao bairro de Interlagos. O acesso à praia do Peitorí é através de rua calçada com paralelepípedos, de forma que não impõe dificuldades a pedestres ou veículos motorizados.
O leitor verá, portanto, que damos destaque às pescarias realizadas no mar contíguo ao litoral do bairro. Os pescadores localizam por volta da década de oitenta o recrudescimento da poluição e assoreamento do Rio Jucu. Atualmente a pescaria realizada neste rio ainda acontece, mas de maneira não sistemática e principalmente em busca de iscas para a pescaria de mar. No inverno, quando os cardumes de tainhas estão entrando pela boca do rio, há um aumento da pescaria no mesmo. Ainda assim, a atividade pesqueira no Rio Jucu não é mais a sombra do que foi no passado, quando era alternativa segura para os dias de mar agitado e até mesmo modalidade de pesca preferencial de alguns pescadores. Assim, se investigar a pescaria do rio certamente revelaria um repertório vastíssimo de conhecimento técnico e naturalístico, principalmente com a colaboração dos pescadores “antigos”, me pareceu que esta pescaria não era mais suficientemente significativa do ponto de vista sociológico.
Enquanto a pescaria de arrasto é realizada em no máximo três lugares possíveis2, de conhecimento de todos, tanto a pesca com rede de espera quanto a pescaria de linha dependem para o seu êxito do conhecimento de lugares piscosos no mar. Há quatro tipos de fundo na região: pedra, cascalho, lama e areia. A cada tipo de fundo correspondem espécies de pescado que se espera capturar (por exemplo, a pescadinha esta relacionada à lama, o baiacu às pedras). Estes fundos possuem gradações, de maneira que os pescadores identificam lugares em que é “areia com lama”, lama mais ou menos grudenta, “pedra rasa”, “pedra grossa”, “ baixa” , entre outros.
A localização destes pontos de pesca é feita a partir de marcas em terra, prática identificada por diversos autores em outros grupos de pesca (Kant de Lima & Pereira, 1997; Acheson, 1988; Forman, 1970; Maldonado, 1994; Gladwin, 1970, Mello & Vogel, 2004). Para cada ponto pesqueiro no mar existe uma combinação de marcas de terra correspondentes. O conhecimento e a capacidade de lembrar destas marcas são essenciais para encontrar os lugares de pesca e as redes, já que os pescadores não utilizam aparelhos como o GPS (Global Positioning System), um sistema de posicionamento por satélite amplamente usado por navegadores em todo o mundo. Dessa maneira, conhecer e lembrar das marcas em terra são condições para o sucesso da pescaria e fatores de distinção técnica entre os pescadores. Um pescador me explicou que, mesmo conhecendo as marcas do ponto pesqueiro, é preciso ter experiência e inteligência para saber encontrar com exatidão a “lama certa”.
Presenciei situações em que pescadores experientes se divertiam com episódios em que outros pescadores perderem suas redes, “enrocadas” nas pedras, tentando “segui-los”. Situações deste tipo permitem identificar a tensão existente entre maximizar o sucesso da pescaria e o risco de perder ou danificar o equipamento (ver Acheson, 1988:97). Nas pescarias das quais participei observei que a garatéia3 era usada algumas vezes como instrumento para “garatear” o fundo (na ocasião que presenciei, de pedra), permitindo caracterizar gradações em que as pedras eram maiores ou menores. Outras vezes a chumbada, que compõe o equipamento da pescaria de linha, também pode ser usada para identificar o tipo de fundo, dependendo da maneira que sentem ela batendo no fundo do mar: “na areia bate firme e fica; nos cascalhos ela dá tipo um quiquezinho; na pedra ela enroca logo” (pescador local) .
Após ter participado de algumas pescarias, me chamou atenção o fato de que meus parceiros falavam das marcas em terra como se elas, e não nossa embarcação, estivessem se mexendo, de maneira que era uma tal casa que estava “andando” em uma direção ou em outra ou então me explicavam a localização do ponto pesqueiro dizendo, “quando aquele morro que parece um dedo estiver no meio do Morro da Concha”. De maneira parecida, Gladwin (1970) identificou que os nativos do atol de Puluwat (Ilhas Carolinas/EUA) falavam sobre as ilhas que iam deixando pra trás em suas navegações como se elas, e não a embarcação, estivessem se mexendo. Nas pescarias da Barra do Jucu, no entanto, não se trata de navegar distâncias sem ter a visão de terra e guiando-se pelas estrelas, como em Puluwat. Nas pescarias das quais participei as marcas em terra não serviam para calcular distancias percorridas, como o sistema Etak nas Ilhas Carolinas, mas para localizar lugares no mar. De toda forma, o que há em comum nos dois sistemas, que aparentemente discorrem em “erro” por creditarem movimento às ilhas ou marcas em terra, é que são maneiras convenientes de organizar as informações que as pessoas têm à sua disposição para fazer seus julgamentos navegacionais prontamente e sem confusão, se tratando portanto de um dispositivo prático que garante a orientação (:182).
O fato dos pescadores da Barra do Jucu se aterem às características do sensível ao falarem do seu sistema de localização como um em que morros ou árvores se movem aproxima este sistema da noção de ciência do concreto, como desenvolvida por Lévi- Strauss (1970). Segundo o autor, esta maneira de proceder no conhecimento do mundo envolve modos de observação e de reflexão “exatamente adaptados a descobertas de um certo tipo: as que a natureza autoriza, a partir da organização e da exploração especulativas do mundo sensível em termos de sensível” (: 37).
É também esta atenção às propriedades sensíveis que fornece as condições para os pescadores formularem uma lógica classificatória dos tipos de fundo que existem na região (pedra, areia, lama e cascalho) e as condições que cada um destes tipos oferece para a ocorrência de determinados tipos de peixe, que por sua vez são divididos em peixes que dão na lama, como a pescadinha e a pescada ou que dão nas pedras, como o baiacu e a carapeba, havendo ainda os que podem ser encontrados em dois ambientes. Como pude observar, os peixes podem ser classificados ainda em reimosos ou não, dependendo da “força” de sua carne, que pode interferir negativamente, por exemplo, sobre processos inflamatórios. Outra maneira de classificar os peixes que identifiquei distinguia entre peixes de pele, como a espada, peixes de couro, como a guaibira e peixes de escama como a pescadinha, sendo que cada um demanda um procedimento específico durante sua “limpeza”.
Percebi também que em relação à nomenclatura dos pontos pesqueiros o tipo de fundo não é o único aspecto do lugar que funciona como atributo de classificação, de maneira que, assim como no caso dos peixes, que podem ser classificados segundo a força da sua carne ou pela sua pele, não há um critério absoluto (Silva, 1989: 66) de ordenação dos pontos de pesca. Dessa forma, algumas vezes o critério pode ser a paisagem, como no caso da Tapera (que faz referência a um morro), ou então o fato do lugar ter sido freqüentado por determinado pescador, estando ligado ao tempo estrutural do grupo, como a bacia do Felogomes ou o pedregulho de Calazans.
Dessa maneira, as três variáveis classificatórias identificadas por mim na Barra do Jucu coincidem com as encontradas por Colaço (2006) quando explicita os nomes dados aos lugares de pesca pelos pescadores da Lagoa Feia em Campos dos Goytacazes-RJ: a primeira seria a constituição do fundo da Lagoa; a segunda as formas pertencentes à paisagens acessíveis ao olhar a partir do lugar; a terceira a associação a nomes próprios ou apelidos, tais como reteve a memória local (:66).
Diversos pescadores com que conversei a procura de informações sobre os nomes dos lugares de pesca me disseram que este saber está se perdendo, que quem conheciam muitos nomes eram os antigos. Uma das razões que me apresentaram para isso foi o fato de a paisagem, que oferece as marcas para localizar os pesqueiros, foi muito modificada nos últimos anos, matas foram derrubadas, morros foram postos abaixo para extrair barro, de maneira que muitas marcas foram simplesmente perdidas. No entanto, como o sucesso das pescarias de rede de espera (de fundo) e de linha depende fundamentalmente do conhecimento de lugares piscosos, a redução do escopo do conhecimento não significou seu desaparecimento, servindo ainda como elemento de distinção técnica.
Os pescadores da Barra do Jucu possuem também uma representação fundamental a respeito das sazonalidades naturais que se expressa na distinção entre o verão, ou tempo quente (Nov- Mar), e o inverno, ou tempo frio (Abr-Out), que compreendem respectivamente duas metades do ano. Essa representação sobre o tempo corresponde à noção de tempo ecológico proposta por Evans- Pritchard (1978), como expressão das relações entre o grupo e os ciclos naturais. Cabe lembrar, no entanto, que não se trata de uma transposição mecânica dos ritmos naturais sobre as representações do grupo, mas antes de uma apropriação consciente dos ritmos naturais pelos pescadores, segundo as atividades pelas quais se interessam e que realizam, o que imprime o sentido social do tempo ecológico. A referência aos meses correspondentes ao tempo quente e ao tempo frio, por sua vez, não deve ser tomada aqui como algo rígido, porque os pescadores não dividem as duas metades do ano em função dos meses, mas em função das mudanças sazonais que selecionaram para orientar os ritmos de suas atividades, de maneira que o começo do tempo frio, por exemplo, pode chegar mais cedo em um ano do que em outro.
Ao tempo frio e ao tempo quente correspondem, por um lado, diferentes características predominantes do ambiente natural que demandam um saber naturalístico e procedimentos técnicos específicos, e por outro, diferentes formas de estruturar as relações entre as diferentes pescarias da Barra do Jucu. Como veremos mais adiante, é em grande parte através da categoria “olho grande” que os pescadores compreendem essas mudanças regulares nas relações entre os pescadores e as pescarias. Vamos abordar em primeiro lugar os aspectos naturalísticos do tempo frio e do tempo quente e em seguida seus aspectos sócio-estruturais.
No tempo quente há uma predominância do vento nordeste. Este vento está geralmente associado a um “tempo bom” para a navegação, porque o Morro da Concha protege as águas da Praia da Concha. Neste período, além da pescaria com rede de espera e de linha, realiza-se também a pescaria de arrasto. Já no tempo frio o vento predominante é o vento sul. Este vento produz condições inversas às do vento nordeste, já que “pega a Concha de frente” e torna a saída pro mar bastante arriscada, configurando o que chamam de “mar grosso”. Em dias deste tipo, pude observar situações em que os pescadores alinham suas baiteras de frente para o mar e vão saindo, embarcação por embarcação, numa ordem que é em grande medida a ordem dos mais habilidosos, já que os menos habilidosos passam muito mais tempo esperando o mar “amansar”.
Mais que a direção do vento, importa aos pescadores a força com que este está soprando. Ventos muito fortes tornam a pescaria mais desgastante, principalmente se o pescador não tem motor. E tornam-na também mais perigosa, por causa das ondas laterais, as “maresias”, que ameaçam encher a baitera de água. Ondas grandes, mesmo sem vento, são perigosas, principalmente na entrada e na saída do mar. Em situações em que os pescadores enfrentam um temporal no mar e as marcas de terra não podem ser visualizadas, as ondas servem como orientação, já que sabem que elas estão sempre “jogando pra terra”, ainda que não possam saber se o vento e a corrente estão levando-os mais para o sul ou mais para o norte. As variações de intensidade dos ventos e das ondas ocorrem tanto no tempo quente quanto no tempo frio, mas de maneira geral os pescadores concordam em relacionar o tempo quente ao vento nordeste e ao “mar manso” e o tempo frio ao vento sul e ao “mar grosso”.
Em relação à ocorrência de peixes, a maioria dos pescadores concorda que antigamente, como costumam dizer, as épocas de cada peixe eram mais bem delimitadas. Hoje dizem que a pesca não possui a mesma previsibilidade. No entanto, os pescadores reconhecem que alguns peixes ainda possuem períodos bem marcados. Dessa forma, o tempo quente é em grande medida o tempo do xinxarro, da manjuba e da pescadinha. Neste período grandes cardumes destes peixes se aproximam da costa, perseguindo as “comidinhas”, peixes pequenos que atraem outros maiores. Já o tempo frio é em grande medida o tempo do baiacu. Neste período a pescaria de linha prevalece sobre a de rede de espera e rede de arrasto, em parte pelas condições do mar, mas também porque o baiacu não pode ser capturado de outra forma senão de linha e com a utilização de um pedaço de aço próximo ao anzol como já foi dito. Nos dois primeiros meses do tempo frio (março e abril), além do mar estar mais constantemente “grosso”, também é um período de menor piscosidade, porque as “comidinhas” do verão já se afastaram da costa, mas os cardumes de baiacu ainda não são encontrados. A partir do final de maio e começo de junho o baiacu já apareceu e o mar possui mais dias de calmaria (ainda não tanto quanto no tempo quente) de maneira que a pescaria se torna “animadora” como me explicou um pescador. A partir do mês de agosto, com o vento nordeste cada vez mais constante a pescaria segue com regularidade até o final do verão.
Ouvi também dos pescadores que, para matar peixe, eles têm preferência pela água “correndo”, seja para o sul ou para o norte, já que quando a água “pára” o sucesso da pescaria é menor porque o peixe também “pára de correr”. Alguns pescadores me relataram preferência pela água que corre do norte para o sul por esta ser mais piscosa.
Já em relação às variações de maré a maioria dos pescadores me expressou preferência pela “maré morta”, relacionada aos quartos crescente e minguante da Lua. Um pescador, no entanto, que é reconhecido pelos outros como um bom pescador, me expressou preferência pelas marés que variam bastante, relacionadas à Lua cheia e nova, segundo ele porque essas “alvoroçam os peixes”. Pude observar então que, enquanto há uma concordância mais ou menos geral sobre as mudanças sazonais relacionadas ao tempo quente e ao tempo frio, outros elementos como a preferência pela maré não são tão consensuais, mas sofrem influência da experiência pessoal dos pescadores. Todos concordarão que a maré, a época do ano, a direção da água, influenciam na ocorrência dos peixes, mas como cada um vai interpretar estes elementos do ambiente e relaciona-los, varia.
Vimos então que, em linhas gerais, o tempo quente corresponde ao período do ano em que o mar costuma estar manso, o que significa bom para a navegação. É neste período que se aproximam da costa cardumes de “comidinha” que são peixes pequenos, que atraem outros maiores. Como a água costuma permitir melhor visibilidade no tempo quente, é relativamente fácil, mesmo para não pescadores, visualizar esses cardumes. A maior ocorrência de peixes, associada às boas condições de navegação do mar, fazem com que se intensifique a atividade pesqueira e com os pescadores pescando mais próximos da praia que no inverno. Como dizem os pescadores, no verão “o olho cresce”.
As expressões “olho grande” ou “olho gordo” são muito importantes para a compreensão das relações entre os pescadores da Barra do Jucu. Elas constituem acusações recorrentes entre eles e dificilmente alguém escapa de ser acusado eventualmente de “olho grande”. Geralmente, quando agem de um modo que sabem incitará este tipo de acusação, os pescadores o fazem sob a justificativa de “sacanear” alguém que julgam tê-lo “sacaneado” antes. Isso ocorre quando alguém diz ter tido sua rede “cercada” pela de outro pescador, ou deliberadamente por pescadores de rede de espera para prejudicar a pescaria de arrasto. Como veremos, “olho grande” é também uma categoria nativa chave para a compreensão das mudanças sazonais nas relações estruturais na pescaria da Barra do Jucu, ao mesmo tempo em que designa uma espécie de controle moral da exploração dos recursos e da competição entre os segmentos da pescaria e internamente aos mesmos. Enquanto categoria social, esta expressão funciona, portanto, como “princípio de juízo e raciocínio” (Mauss, apud Cardoso de Oliveira, 1979: 40) estruturante de uma etiqueta que busca regular tanto as relações dos homens com a natureza quanto as relações dos homens entre si4.
Como vimos, é no verão que, além da pescaria com rede de espera, realiza-se também a pescaria com rede de arrasto. No tempo frio esta modalidade de pesca dificilmente é realizada, já que o mar costuma estar grosso, difícil para navegação, e os peixes estão “correndo mais por fora”5. É, portanto, no verão, quando o mar está menos agitado e há um aumento da piscosidade conhecido e previsto socialmente, que as relações estruturais entre a pescaria com rede de arrasto e as pescarias da Praia da Concha (com rede de espera e como linha), em grande medida distendidas ou “adormecidas” no tempo frio, se tornam observáveis. Estas se caracterizam por uma maior competição e conflitos, já que os pescadores consideram o verão também como o tempo da acumulação, que vai garantir reservas monetárias para os dias de mar grosso do inverno, quando chegam a ficar mais de uma semana sem poder ir ao mar. É por isso que os pescadores dizem que o verão é o período em que o “olho cresce6”. Nota-se então que a expressão “olho grande” acrescenta um significado social à distinção sazonal entre tempo quente e tempo frio.
Como pude observar, no verão, alguns pescadores que possuem rede de espera ou pescam de linha chegam a lançar tarrafas, a partir de suas baiteras, sobre os cardumes que a pescaria de rede de arrasto busca capturar, algumas vezes depois de o cardume já estar “dentro da rede”, num gesto explicitamente desafiador. Outras vezes alocam suas rede de espera num local que sabem irá prejudicar o arrasto.
Como vemos nos trabalhos de Pessanha (2003) e Kant de Lima & Pereira (1997), em Itaipu, até pelo menos a década de 1970, a pescaria com rede de espera possuia uma “posição de inferioridade, em termos globais, com relação à pescaria de arrasto” (Kant de Lima & Pereira, 1997: 93). O cerco da tainha era a operação que conjugava um reforço das hierarquias internas do segmento à projeção da identidade do grupo para fora de Itaipu. Bruno Mibieli (2004), mostrou como com o sumiço da tainha no inverno, a pescaria de arrasto teve seu poder político reduzido, expresso no afrouxamento das regras que ordenam os lugares de pesca, já que as redes de espera deixaram de ser retiradas durante o dia no inverno (:29-30). Já em Arraial do Cabo, pelo menos até 1989, Britto (1999) identificou que entre as modalidades locais de pesca:
o cerco é, de longe, aquela que goza de maior prestígio junto à população local. Isso decorre, em parte, do fato de ser um sistema que propicia, em geral, um rendimento mais elevado. Mas, também, pelo seu reconhecimento enquanto sistema de trabalho que conjuga melhor os atributos de saber e arte ao fator sorte e , sobretudo, pelo seu papel de catalizador das relações sociais (:59)
Na Barra do Jucu, ao que parece, as pescarias da Praia da Concha, com rede de espera e linha possuem um prestígio maior que a de arrasto. Alguns pescadores mais antigos falam que, antigamente, os donos das redes de arrasto deviam consultar os donos de rede de espera e fazer um acordo de dar a estes uma parte da produção a cada lance. O fato de que não se verifica mais a prática de dar uma parte aos donos de rede de espera pode ser interpretada como indício de uma redução relativa do poder político da pescaria da Praia da Concha. Ainda assim, as pescarias da Praia da Concha ainda são vistas, pelos pescadores locais, como as mais representativas das pescarias da Barra do Jucu, pelos motivos apontados a seguir.
A pescaria de rede de espera e de linha são realizadas o ano inteiro e em sua maioria por pescadores, senão nativos, ao menos longamente estabelecidos na Praia da Concha. A pescaria de arrasto, por outro lado, realizada exclusivamente no verão, envolvendo pessoas que não vivem da pesca o ano inteiro, é representada em grande medida como “ganância”, já que almeja ganhos altos num curto espaço de tempo, algumas vezes realizando uma seqüência de lances considerada excessiva pelos pescadores, oferecendo oportunidades para acusações de “olho grande”. Um pescador da Praia da Concha justificou assim sua oposição à pescaria com rede de arrasto: “passar uma vez, duas, quando vêem o cardume é uma coisa, agora ficar passando uma atrás da outra do jeito que eles passam já é olho grande”.
Além disso, esta pescaria é responsabilizada pela queda do preço dos peixes, já que os oferece em grande quantidade e também de implicar num acúmulo desproporcional de ganhos nas mãos do dono de pescaria. Como um pescador que não participa das pescarias de arrasto me explicou certa vez: “se não fosse o arrasto, cada parceria voltava com sua caixinha de peixe, mas com o arrasto só quem ganha é o dono de rede”. Um outro pescador da Praia da Concha que também não participa da pescaria de arrasto chamou atenção para o aspecto “capitalista” que a divisão do pescado permitia perceber.
Em relação aos valores atribuídos às diferentes pescarias de lagoa em Marica/RJ, Mello & Vogel (2004: 325) destacaram o menosprezo zelosamente cultivado pelos pescadores locais em relação à adoção dos arrastos em que, apesar de produzirem mais de uma só vez, prevalece a “força bruta”, em oposição à pesca de galho que estabelece os parâmetros de excelência das pescarias nativas. Além deste aspecto, os autores destacam ainda que os arrastos reduzem a participação das unidades domésticas na atividade primitiva. Portanto, assim como em Maricá, na Barra do Jucu os conflitos com o arrasto não se devem a um desprezo pelo excedente, mas ao fato de que nesta pescaria o excedente se concentra nas mãos do dono da rede enquanto nas pescarias da Praia da Concha os ganhos são repartidos de uma maneira considerada mais equilibrada.
Um outro aspecto que gostaria de destacar é que, como poucas pessoas da Barra do Jucu participam das pescarias de arrasto, mesmo como puxadores de rede, os donos de arrasto precisam contar com o trabalho de pessoas que moram num bairro adjacente, Terra Vermelha. Este bairro é bastante estigmatizado pelas pessoas da Barra do Jucu, já que é um bairro relativamente recente, que surgiu no final da década de oitenta e ao qual se atribui um nível alto de criminalidade. O fato da pescaria de arrasto envolver como puxadores de rede pessoas deste bairro contribui para a estigmatização da atividade como uma que, apesar de “ser da Barra”, os moradores nativos só se identificam parcamente.
Das três redes de arrasto existentes na Barra do Jucu (Raul, Fernando, Sinhô) apenas uma é de pescador da Praia da Concha (Raul), e ainda assim ele pesca lá há menos de um ano (agosto/2007). O fato de que um dos donos de rede se tornou há quase um ano (agosto/2007) pescador assíduo também na Praia da Concha é fator que traz para ele um argumento legitimador das operações de arrasto já que não se pode mais dizer dele que só pesca no verão. Isso, se por um lado parece remeter ao que tenho percebido como um aumento gradual de poder político da pescaria de arrasto, não chega a reverter as representações que sustentam a pescaria da Praia da Concha como a mais tradicional, menos predatória e a que permite uma participação mais igualitária no produto das pescarias.
Cabe ainda salientar que, por mais que de maneira geral haja uma concordância sobre os valores e significados atribuídos à pescaria de arrasto, como expus nos parágrafos anteriores, há de se levar em consideração que às diferentes posições na estrutura do grupo correspondem certas variações na perspectiva sobre a atividade. Dessa forma, da mesma maneira que encontrei pescadores da Praia da Concha que se recusam a participar da pescaria de arrasto, há outros que se envolvem eventualmente e um número reduzido trabalha nela quase todo verão. Assim, quando conversamos com os pescadores verificamos “gradações críticas” à pescaria de arrasto, que se revelam algumas vezes na ambigüidade de afirmar que ela pode ser responsável em parte pela redução do pescado, mas que ao mesmo tempo é uma pescaria “que sempre teve” e que se não for realizada com “olho grande”, ou seja, com lances excessivos “no escuro”, não é necessariamente tão danosa. Dessa forma, dependendo da ênfase que o pescador der sobre suas relações com a pescaria de arrasto, esta pode parecer como complementar à pescaria da Concha ou contraditória em relação à esta.
Britto (1999) no estudo de identidades ligadas às diferentes pescarias de Arraial do Cabo, retomou Da Matta (1976: 36) e relacionou a oposição entre cabistas e caringôs à identidades paradoxais, “visto que o segundo grupo conformaria uma categoria definida como ilegítima dentro do sistema de valores que sustenta a condição idealizada de cabista (:54)”. Já a oposição entre pescaria de rede e pescaria de linha, interna aos cabistas, “envolveria, ao contrário, identidades que se conjugam e se complementam”. Acredito que as relações entre a pescaria da Praia da Concha, com rede de espera e linha e, a pescaria de arrasto, que oscilam entre competição e complementaridade, estariam mais próximas da relação entre pescaria de rede e pescaria de linha em Arraia do Cabo do que da relação entre cabistas e caringôs, já que ao mesmo tempo em que podem haver conflitos, alguns pescadores da Praia da Concha participam regularmente da pescaria de arrasto, principalmente realizando o lance, de maneira que tanto a pescaria da Praia da Concha quanto a de arrasto são tidas como pescarias da Barra do Jucu, ainda que a pescaria da Concha seja vista de maneira geral como mais prestigiosa.
Nos estudos em Itaipu (Kant de Lima &Pereira, 1997; Pessanha, 2003; Mibieli, 2004) um dos fatores que explicavam a preponderância da pescaria de cerco era a previsibilidade extraordinária da tainha associada à possibilidade de ganhos que na são possíveis em outros períodos do ano, que não o inverno. Estes fatores faziam do inverno um momento especial de afirmação da identidade do grupo e da afirmação das hierarquias internas ao segmento. Com o sumiço da tainha, o verão passa a assumir uma preponderância maior que a do inverno, através do lance à sorte. Na Barra do Jucu, o verão também é o momento de maior piscosidade e possibilidade de ganhos. E é o momento em que as relações entre, por um lado, a pescaria da Concha (com rede de espera e com linha) e, por outro, a pescaria de arrasto, se atualizam e se tornam observáveis, num reforço da diversidade interna do grupo de pescadores da Barra do Jucu. Neste período a preponderância da pescaria da Concha, realizada o ano todo e que os pescadores de maneira geral consideram a mais representativa das pescarias da Barra do Jucu, entra em conflito com a pescaria de arrasto, tornando o tempo quente um momento paradigmático em que os significados destas pescarias e suas posições estruturais são confrontados e atualizados.
O verão também ocasiona um aumento das acusações de “olho grande”, internamente às pescarias da Praia da Concha. No tempo frio, com o “mar grosso”, a ocorrência do baiacu e o risco de perder as redes de espera contribuem para um predomínio da pescaria de linha. Esta modalidade de pesca permite que os pescadores compartilhem os lugares de pesca de maneira menos conflituosa. No tempo quente, com o aumento do uso das redes de espera, que ficam vários dias no mesmo lugar, as disputas pelos lugares de pesca ficam mais acirradas. É mais comum nessa época ouvir os pescadores reclamarem que suas redes estão “cercadas”, o que significa que algum “olho grande” alocou sua rede antecipadamente à do acusador, tendo por referência a direção para a qual a água está correndo. Deste modo os peixes são interceptados pela rede do pescador “olho grande”. Os pescadores dizem que “é só matar peixe num dia que no outro tem um monte de rede em volta”. Na pescaria de linha, por outro lado, as diferentes parcerias ficam muitas vezes poucos metros distantes umas das outras, apoitadas, pescando baiacu, sem que ocorram tantos conflitos. É por isso que, entre as pescarias da Praia da Concha, a pescaria de rede de espera é considerada “olho grande”, quando comparada à pescaria de linha. Além disso, a pescaria de linha é também o tipo de pesca preferido por vários pescadores em função de ser por eles percebida como a modalidade que “anima mais”, já que o pescador tem uma interação mais ativa na captura do peixe do que no caso da rede de espera.
Em Os Pescadores de Itaipu (Kant de Lima & Pereira, 1997) Kant de Lima nos mostra como o inverno possui para o grupo local a característica de aglutinar o grupo, ao mesmo tempo em que reforça as hierarquias, em um reforço da estrutura, esta pensada como a dimensão de uma sociedade em que ela se representa como fortemente marcada pelos papéis e funções sociais que a organizam. Em oposição a isto, o verão seria um período em que há uma ênfase na dimensão communitas do grupo, marcada pela dispersão e pela desordem, em que as posições estruturais ficam menos enfatizadas e o grupo aparece quase como uma coisa só, sem segmentações. Estas noções de estrutura e communitas Kant de Lima utilizou a partir da leitura de Turner (1974), e concordando com o autor, esclarece que não se tratam tanto de momentos distintos que se sucedem, mas de sístoles e diástoles constantes, ou seja, ênfases que se alternam, sem que nenhuma das dimensões mencionadas da vida social desapareçam completamente.
As representações sobre o tempo articuladas por um determinado grupo social não são, no entanto, estáticas. Bruno Mbieli (2004), como vimos, percebeu mudanças na significação do verão e do inverno em Itaipu, marcadas pelo sumiço da tainha, que acarretou em uma redefinição dos ritmos da atividade local, com o verão sendo a partir disso o período do ano em que depositam-se as maiores expectativas em torno da pescaria.
Se pensarmos em termos de communitas e estrutura para interpretar os significados do tempo quente e do tempo frio na Barra do Jucu, podemos dizer que, de maneira geral, no inverno prevalece um sentimento de communitas, com os pescadores pescando majoritariamente de linha, compartilhando os lugares de pesca, mais distantes da costa, de maneira menos conflituosa e competindo jocosamente entre si a respeito da captura de peixes nesta modalidade que é tida por muitos como a pescaria preferida. Já no verão há um reforço da estrutura, já que todas as modalidades de pesca estão em ação e exploram seus poderes políticos na disputa pelos lugares piscosos, concentrados nesta época do ano mais próximos da praia. Soma-se a isso o fato de que há um aumento considerável da piscosidade nesta época do ano, o que possibilita a realização de reservas econômicas (em dinheiro ou em produto) para o período conhecido como “maré de março” que antecede o aparecimento do baiacu, o que explica os pescadores se referirem ao verão como o tempo do “olho grande”.
Abaixo uma “roda” que tentar sintetizar as relações entre os aspectos naturais e sociais dos ritmos locais de pescaria:
Após o término do verão, o conflito fundamental entre a pescaria da Praia da Concha (com redes de espera e linha) e a pescaria de arrasto “adormece”, já que esta última deixa de ser realizada, pelas condições do tempo frio, em que o mar está mais “grosso” e os peixes “correndo mais por fora”. Estes conflitos podem, no entanto, ressurgir antes do retorno do verão, como aconteceu em setembro de 2006. em uma reunião em que produziram um documento com regras sobre o uso dos espaços, como veremos adiante. De toda forma, quero salientar que estes conflitos não são desestruturantes, fazendo antes parte do funcionamento “normal” da vida social do grupo e da estrutura das relações entre estas pescarias. Gostaria de retomar Van Velsen (1987) que chama atenção para a dimensão conflitiva da vida social, dizendo como:
Em todas as sociedades existem incongruências e contradições entre os vários conjuntos de normas nos diferentes campos de ação. Um problema que os membros de qualquer sociedade devem resolver é o de viver com estas incongruências através da manipulação de normas, de forma que as pessoas possam continuar a viver juntas numa ordem social (: 349)
Só quando trazemos este tipo de entendimento para o campo podemos compreender as tensões que envolvem episódios como o já mencionado, em que um pescador da Praia da Concha lança sua tarrafa sobre um cardume de peixes, depois deste já estar cercado pela rede de arrasto. Em uma situação destas, temos por um lado um pescador afirmando a Praia da Concha como lugar tradicional de pesca e fazendo oposição explícita ao que considera um lance excessivo de arrasto. Por outro, temos o dono da rede de arrasto se sentindo no direito de realizar tal lance porque considera que não tem realizado lances excessivos e que, além disso, se considera generoso na distribuição dos peixes. O fato é que há sempre argumentos que podem ser reunidos para defender uma posição ou outra. O que importa aqui é, seguindo a dica de Van Velsen, perceber como as normas de um grupo podem ser contraditórias em certos aspectos, sem que isso implique em que devamos tratar estas variações como exceções, devendo antes ser integradas numa compreensão dinâmica da estrutura normativa que organiza a vida social, no nosso caso, a pescaria de mar da Barra do Jucu.
Neste artigo tentei mostrar como os pescadores da Barra do Jucu se apropriam dos ritmos naturais locais para construir uma noção nativa de tempo ecológico, marcada por mudanças sazonais nas relações entre os pescadores e entre as pescarias. Como a pesquisa permitiu perceber, o verão é o momento paradigmático para a atividade, pelo aumento da piscosidade conhecido e previsto socialmente e porque é neste período do ano que as relações entre as pescarias da Praia da Concha (com rede de espera e de linha) e a pescaria de arrasto, são confrontadas e atualizadas. Esta percepção das mudanças sazonais nas relações entre as pescarias é expressa pelos pescadores através da categoria “olho grande” que funciona, portanto, como “princípio de juízo e raciocínio” (Mauss, apud Cardoso de Oliveira, 1979: 40) estruturante de uma etiqueta local que busca regular, tanto as relações dos homens com a natureza, quanto as relações dos homens entre si.
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1 A respeito da presença do numinoso nas representações dos pescadores sobre a atividade, ver Mello & Vogel (2004), que se referem à presença do sobrenatural como o “quarto parceiro, além dos homens, dos animais e das plantas” (:294).
2 Preferencialmente na Praia do Peitorí, mas também na Praia da Barrinha e na Praia Grande.
3 Termo nativo que designa um instrumento que funciona como âncora, feito pelos próprios pescadores, com vergalhões de ferro, cano pvc e cimento.
4 Vale ainda destacar que, enquanto a expressão “olho grande” designa usualmente na sociedade brasileira um tipo de infortúnio produzido por meios imateriais, como quando alguém explica a morte de uma pimenteira pelo “olho grande” que o vizinho colocou, podendo inclusive ser associada, neste sentido, à noção de bruxaria entre os Azande estudados por Evans- Pritchard, como sugeriu Giumbelli (2006), já que articula juízos morais e a atribuição de responsabilidade pessoal, no caso dos pescadores, “olho grande” está sempre associado a práticas concretas, como cercar a rede de fundo de alguém, ou realizar lances excessivos de rede de arrasto, mantendo, no entanto, a articulação entre juízos morais e a atribuição de responsabilidade pessoal.
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